Cancro da próstata: o silêncio que precisamos de quebrar
Falar de cancro da próstata é falar de algo que, apesar de muito frequente, continua envolto em silêncio. Como urologista, vejo diariamente o impacto que um diagnóstico tardio pode ter na vida de um homem e da sua família. Por outro lado, testemunho também como a deteção precoce muda completamente o rumo da doença - e é por isso que insistimos tanto na prevenção.
O cancro da próstata é o tumor sólido mais comum no homem. Sabemos hoje que o risco aumenta com a idade, com a história familiar e com determinadas predisposições genéticas. A idade é, de longe, o maior fator de risco: a probabilidade cresce significativamente após os 50 anos. A história familiar também pesa: ter um pai ou irmão com cancro da próstata duplica o risco, sobretudo quando o diagnóstico ocorreu em idade jovem. A raça negra constitui outro fator relevante, associando-se a maior incidência e a formas potencialmente mais agressivas da doença. Acresce ainda o papel de alterações genéticas hereditárias, como mutações nos genes BRCA1, BRCA2 e noutros genes de reparação do ADN. Fatores como excesso de peso, sedentarismo e alimentação pobre em vegetais podem também contribuir, ainda que de forma mais discreta.
A grande questão é: quando começar a vigilância? As recomendações internacionais apontam para o início do rastreio por volta dos 50 anos, através da análise do PSA e da avaliação por um urologista. No entanto, para homens com história familiar, origem genética de maior risco ou com antecedentes de mutações hereditárias, o ideal é começar mais cedo, a partir dos 45 anos. Este pequeno adiantamento pode fazer uma diferença substancial na deteção precoce.
O problema é simples: a doença inicial raramente causa sintomas. A próstata é discreta, trabalha sem se fazer notar, e isso leva muitos homens a ignorarem a necessidade de vigilância. Quando surgem queixas urinárias - jato fraco, maior frequência, urgência - muitas vezes não têm relação direta com cancro, mas podem atrasar uma avaliação necessária. Por isso, a prevenção assenta sobretudo em duas ferramentas: o PSA e a observação clínica por um urologista. Nenhum é perfeito isoladamente, mas juntos permitem identificar alterações suspeitas com grande sensibilidade.
Quando detetamos um tumor cedo, temos margem para escolher o tratamento mais adequado: desde vigilância ativa para tumores indolentes, evitando tratamentos desnecessários, até opções cirúrgicas e radioterapêuticas cada vez mais precisas, que preservam melhor a função sexual e urinária. A medicina evoluiu muito - o que não evoluiu na mesma velocidade foi a consciência da importância do rastreio.
Novembro lembra-nos que a saúde masculina merece tempo, atenção e conversa aberta. Não se trata de medo, mas de responsabilidade. A prevenção não evita apenas o cancro; evita as consequências de o descobrir demasiado tarde.
A mensagem que deixo é simples: falem sobre isto, informem-se e façam o rastreio. Cuidar da próstata é um gesto pequeno com um impacto enorme na vida.

