Escondida no coração de São Romão, ergue-se a Capela de Santo António, fundada pela família Nogueira. A sua impulsionadora, Dona Ana Nogueira, a conhecida Dona Aninhas, deixou-lhe tanto da sua alma que a capela parece ainda guardar a sua presença. Embora privada, foi durante décadas um lugar aberto e vivido pela comunidade. O Padre Barata celebrava ali a missa dominical, a missa diária ao fim da tarde e as cerimónias do Mês de Maria. No dia de Santo António, o templo enchia-se por completo.
A vida religiosa unia-se à vida social. O Sr. João, residente na Vila Alzira, emprestava às celebrações uma devoção reconhecida por todos. A Páscoa era o momento mais marcante: após as confissões comunitárias, Dona Aninhas oferecia um pequeno-almoço aos que comungavam em jejum, um gesto que combinava fé, hospitalidade e uma elegância natural, guardada na memória de gerações.
A fama da capela foi tal que, em Seia, a família Cabral mandou construir uma réplica do retábulo-mor para a sua capela particular. Nenhuma cópia, porém, substituiu o original, que permaneceu como templo do coração da comunidade.
No centro simbólico da capela, Santo António mantém-se como figura tutelar, casamenteiro, protetor e companheiro das aflições humanas. A tradição oral conta que Dona Aninhas lhe guardava um afeto especial; verdade ou mito, essa história enriqueceu o imaginário local.
Arquitetonicamente, a capela é uma preciosidade integrada no conjunto doméstico da família Nogueira. O varandim interior e o camarote ligado ao quarto de Dona Aninhas mostram como o sagrado convivia com a privacidade familiar. Portas, janelas e escadas irregulares revelam adaptações feitas ao longo do tempo, vestígios materiais da vida que ali pulsou.
No interior destaca-se o retábulo-mor em pau-preto, raro na região e marcado por influências neoclássicas, barrocas e rococó, provavelmente anterior ao próprio edifício. O nicho central, hoje revestido com padrão dourado e ocupado por um crucifixo, terá em tempos acolhido a imagem principal do santo. Nas mísulas laterais repousam imagens de épocas diversas, um pequeno museu doméstico de devoções acumuladas. Entre elas sobressai a figura de Santo António com o Menino, que quase excede a escala da capela e reafirma a presença protetora do santo.
A fachada mantém a simplicidade original: paredes caiadas, um azulejo de 1940 dedicado à Virgem Maria e, mais acima, um campanário metálico. Um desenho encontrado na casa revelou que o nicho sobre a porta serviu inicialmente de campanário.
Hoje, a Capela de Santo António é um relicário de memórias, onde convivem devoção, sociabilidade e afeto. Após o recente restauro, que recuperou a luz e a dignidade do espaço, prepara-se para um novo capítulo. No dia 13 de dezembro reabre as portas ao público, devolvendo à comunidade um lugar que é parte da sua história e identidade, um património íntimo, coletivo e vivo.

