O livro já é um sucesso mesmo antes de estar nas livrarias. Um fenómeno comercial que terá um lucro superior ao do alegado financiamento líbio a Sarkozy. Na quarta-feira, a fila para autógrafos dava a volta à Rue de La Pompe. "O diário de um prisioneiro" é o relato de tudo o que pensou, sofreu, antecipou e temeu nos dias em que esteve detido em La Santé. Confesso a incredulidade ao ver as imagens do lançamento, as filas, os livros empilhados, a expectativa dos leitores. Eu, talvez mais social-democrata do que pensaria ser possível na adolescência ou, se preferir, radicalmente moderado, não consigo evitar o sarcasmo com esta tendência dos políticos de Direita de amplificarem as suas prisões como se estas fossem uma viagem ao inferno. O homem esteve preso vinte dias! Julgo ser a primeira vez que uso um ponto de exclamação num texto - se Sarkozy escreve um livro acerca do seu cárcere de menos de um mês, o que escreveria Mandela após 27 anos? Em Portugal, sem o mesmo sucesso, há quem tenha escrito sobre o que sofreram durante o PREC - relatos de pessoas respeitáveis que choraram a semana em que estiveram presas sem poder falar com a família e com medo do que lhes pudesse acontecer às mãos daquela gente sem maneiras. O que diriam os comunistas que ficaram em solitárias durante mais de vinte anos, os que foram torturados ou morreram na prisão? Sei que ser preso político é uma medalha, mas fazer tanto escarcéu por tão pouco é absurdamente grotesco e desrespeitador dos que sofreram mesmo. Ou não?
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