Numa campanha para as presidenciais em que a distância entre os principais candidatos nas sondagens é menor do que as margens de erro e em que a escolha (entre os que têm hipótese de passar à segunda volta) é entre o não-aquece-nem-arrefece, o mau e o péssimo, conheço pouca gente que votará por convicção. Ainda assim, sabemos que há uma franja considerável de eleitores convictos, que, achando-se muito patrióticos, votarão num traidor.
Já era claro, mas desde que a Casa Branca divulgou a sua estratégia para a política externa, em que se aproxima dos desígnios de Putin para dividir o Mundo em zonas de influência, quebra a velha aliança com a Europa e faz da União Europeia um alvo a abater, deixou de ser possível ignorar a sua vontade expressa de apoiar a extrema-direita europeia (para indiretamente influenciar ativamente a erosão da União).
Ora quem vota nesses partidos, vassalos do Trumpismo, financiados por Putin e promotores do divisionismo da Europa, por muito que se disfarcem com discursos patrioteiros, está a apoiar os traidores dos interesses do nosso país. A não ser que achem que é benéfico passar a ser um estado vassalo dos EUA (subjugado sem invasão militar) e que é melhor viver numa Europa fragmentada e fraca, para ficar entalado entre as disputas de uma dupla de supervilões.
Que estes partidos são promovidos pelos algoritmos das empresas da Big Tech, já sabemos. Sendo que, por muito punho firme que prometam ter na governação, serão os primeiros a prescindir das mais do que necessárias políticas de regulação destes gigantes e dos seus impactos nas nossas democracias. Afinal, são eles os principais beneficiários desta selva de desinformação, que só piorará com os avanços da IA (também sem regulação). Serão firmes contra os fracos e dóceis para os grandes interesses que atiram o Mundo para a nova idade das trevas.
Um político europeu que defenda Trump e o seu imperialismo, como Ventura fez no último debate em relação ao rapto de Maduro, desfralda uma enorme red flag que deveria afugentar os patriotas. Dizer que se defende Portugal e os portugueses ao mesmo tempo que se está nas fileiras de Trump é uma contradição nos termos e nem quando está em causa a prisão de um ditador se acredita na camada de açúcar retórica. Nem a Casa Branca se preocupa em tecer um argumentário desse tipo: a prisão de Maduro foi justificada pelo controlo do petróleo em plena conferência de imprensa, não depôs o regime (que se mantém estável para favorecer o negócio) e foi só o início de um anunciado processo de marcação e território na senda imperialista de Trump.
Assim, a partir de agora, em vez de chamar populistas, fascistas, antidemocratas aos minions dos Venturas europeus, devíamos todos chamar-lhes traidores, pondo o dedo no seu falso nacionalismo, no seu patriotismo hipócrita, que serve para esmagar os mais fracos nas ruas e na lei, enquanto lambem as botas dos déspotas quem nos quer subjugar.

