"Verdes são os campos, da cor de limão: assim são os olhos do meu coração". Das duas, uma: ou o poeta, inebriado de amor, não distinguia um limão de uma lima (quem não gosta de uma caipirinha?); ou o daltonismo, maleita ainda por estudar no século XVI, impedia-o de ver que a amada tinha os olhos amarelos, sinal de grave enfermidade a pedir a consulta urgente de um curandeiro em vez de loas de amor. Pelo sim, pelo não, fui à procura de um especialista. Meti pés ao caminho e fui ao Bolhão tentar chegar à fala com uma vendedora de fruta pós-graduada na vertente cromática. Quando perguntei se tinha limões verdes, levei uma corrida pontuada com vernáculo do mais alto coturno. "Aqui é tudo maduro! Seu..." Pedi desculpa e pensei que, de facto, se até as obras do Bolhão foram bem maturadas - em vez dos dois anos anunciados, duraram quatro - perguntar por limões verdes era um insulto. Mas soube bem ouvir falar português no mercado que vai receber as Table Talks da Melting Gastronomy Summit, promovidas por uma associação portuguesa (!) que se dedica a promover os produtos regionais. A língua portuguesa não será um deles. E andava eu a chatear o Camões por causa de limões.
Jornalista
