A música só diz "tempo de paz, tempo de amor" porque quem a escreveu nunca ficou responsável pela ceia de Natal. "Tempo de cabaz, tempo de pavoooor quando se começa a pôr os produtos no tapete rolante da caixa três", um ligeiro problema de métrica, mas assim é que devia ser. Saíram, esta semana, as contas do tradicional cabaz de Natal pela Deco e, meus amigos e minhas amigas, eu não sei porque é que continuamos a insistir nisto. O cabaz de Natal, que inclui 16 produtos, como azeite, ovos, leite, bacalhau, peru, vinho, chocolate, aumentou 2,8% este ano. Para termos uma ideia, há três anos, o seu preço situava-se nos 46 euros e hoje, contas feitas, são 54 euros. E isto, para uma ceia modesta para meia dúzia de pessoas. Bom, pode ser o motivo que faltava para aquelas pessoas com problemas em inventar desculpas para não receber a família alargada lá em casa. "Não, tia Joaquina, este ano o melhor é cada um passar na sua casa porque o primo João está na puberdade e não há orçamento que aguente o apetite de um rapaz adolescente. Da última vez, enfiou duas taças de aletria no bucho antes das entradas estarem na mesa".
Curiosamente, o produto que mais encareceu foi a tablete de chocolate de culinária. O preço ronda os quatro euros, representando um aumento de 77% face ao ano anterior. Se ainda não compraram o presente para a vossa cara-metade que tem gostos caros, já sabem: um Pantagruel no sapatinho. Fala-se muito dos aumentos do combustível, mas eu quero é ver isto a ser discutido na Assembleia da República. Eu cá voto no partido que prometa mousse de chocolate na mesa de cada português. É que, de repente, estamos no ponto em que tudo é incomportável e leva-nos a escolhas difíceis ao nível da lenha: ou compramos madeira, que está cada vez mais cara, para aquecer a casa ou temos um tronco de Natal na mesa. Os dois, não dá. Uma pessoa olha para aquele quadro da Última Ceia e começa a achar que só comeram pão e vinho porque nem Jesus, autor de tantos milagres incríveis, conseguiu fazer descer o valor da inflação.
Se o bacalhau e o peru também aumentaram - empobrecendo os pratos tão típicos desta época -, produtos como couve, açúcar e vinho diminuíram. Se os Reis Magos levaram ouro, incenso e mirra para celebrar o nascimento do Deus menino, nós hoje celebramos com fibra, glicose e alcoolemia. O que pode resultar numa noite gira. Casa de banho entupida, miúdos à volta da mesa cheios de açúcar no sangue e uma grande bebedeira generalizada.
O que põe esta época em risco não é, como diz boçalmente a extrema-direita, a malta de Esquerda que quer cancelar o Natal porque "ai, os imigrantes não sei quê...". O que ameaça realmente o Natal é haver famílias, que cada vez mais recorrem a instituições para ter comida na mesa, a escolher entre ter uma mesa composta e comprar o material para os miúdos que vão começar o segundo período escolar. Eu não sei como é que a McDonald´s, que investe tanto em marketing, ainda não se lembrou de criar o McCeia. É que, como as coisas estão, é cada vez melhor ideia fazer um jantar com produtos da europoupança. Um hambúrguer de bacalhau com todos, cinco nuggets de peru recheado e um Sundae de Mon Chéri cujo stock vai ser todo requisitado pela minha tia Fernanda que todos os anos apanha uma tosga com o recheio de licor. Fica a sugestão.

