Crescer não deve doer: Sinais de alerta ortopédicos em crianças e adolescentes ativos
A prática desportiva na infância e adolescência é, indiscutivelmente, um pilar essencial para o desenvolvimento físico, emocional e social. Crianças e adolescentes ativos apresentam melhores níveis de saúde cardiovascular, coordenação motora e autoestima. No entanto, o aumento da intensidade, da frequência e da exigência desportiva em idades cada vez mais precoces tem vindo a expor uma realidade clínica que não deve ser ignorada: a dor não é uma consequência inevitável do crescimento.
Na consulta, é frequente ouvir pais e cuidadores justificarem queixas persistentes como "dores do crescimento". Esta expressão, amplamente utilizada, acaba muitas vezes por mascarar sinais ortopédicos relevantes e atrasar a avaliação médica adequada. Do ponto de vista clínico, crescer não deve doer - e quando dói, é fundamental perceber porquê.
O corpo em crescimento não é um adulto em minuatura
Durante a infância e adolescência, o sistema músculo-esquelético encontra-se em constante transformação. Ossos, músculos, tendões e ligamentos não crescem ao mesmo ritmo. As cartilagens de crescimento, presentes em várias zonas do esqueleto, são estruturas particularmente vulneráveis à sobrecarga mecânica.
Este desfasamento fisiológico torna o corpo jovem menos resistente a cargas repetitivas, impactos excessivos e volumes de treino mal ajustados. Quando estas fragilidades não são respeitadas, o risco de lesão aumenta significativamente.
Lesões mais frequentes en crianças e adolescentes ativos
Na prática ortopédica, observam-se padrões bem definidos de lesão em idades pediátrica e juvenil, sobretudo associados à prática desportiva regular ou intensa. Entre os quadros mais comuns destacam-se:
• Inflamações nas zonas de crescimento dos ossos (apofisites) - surgem onde os tendões se ligam ao osso, em áreas ainda em desenvolvimento. São comuns em crianças e adolescentes que praticam desporto com corrida e saltos, como futebol ou atletismo, e manifestam-se sobretudo no joelho e no calcanhar.
• Inflamações dos tendões (tendinites) - resultam da repetição excessiva de movimentos, especialmente quando os treinos aumentam rapidamente e o corpo não tem tempo suficiente para recuperar.
• Dores articulares precoces - queixas persistentes em articulações como joelho, tornozelo, anca ou costas, frequentemente associadas a excesso de carga, má adaptação ao treino ou desequilíbrios musculares próprios da fase de crescimento.
• Dores nas costas (lombalgias) - relacionadas com falta de força abdominal e lombar, técnica inadequada, postura incorreta ou esforço excessivo para a idade.
• Lesões associadas à prática intensiva de uma só modalidade desde cedo - quando a criança ou adolescente repete sempre os mesmos movimentos, sem variedade de estímulos, aumentando o risco de sobrecarga e problemas musculares e articulares.
Estas situações não surgem de forma súbita. São, na maioria dos casos, o resultado de microtraumatismos repetidos, de carga excessiva ou de ausência de períodos adequados de descanso.
Dor no crescimento: um mito que pode ser perigoso
É importante desmistificar a ideia de que a dor faz parte do crescimento. Embora possam existir períodos de desconforto ligeiro associados a adaptações fisiológicas, a dor persistente, localizada ou limitante não deve ser considerada normal.
Existem sinais de alerta claros que justificam avaliação ortopédica:
· Dor repetida sempre na mesma localização;
· Queixas que surgem ou se agravam com o treino;
· Dor que leva a criança ou adolescente a parar a atividade;
· Dor noturna ou persistente em repouso;
· Alterações da marcha, claudicação ou limitação funcional.
Ignorar estes sinais pode permitir a progressão de lesões simples para quadros mais complexos, com impacto prolongado na prática desportiva e na qualidade de vida futura.
O papel do excesso e da pressão precoce
O aumento da competitividade no desporto jovem, aliado à pressão para resultados rápidos, tem contribuído para erros frequentes: excesso de treinos semanais, ausência de dias de descanso, falta de trabalho compensatório e especialização demasiado precoce numa única modalidade.
O corpo em crescimento necessita de variedade de estímulos, períodos de recuperação e acompanhamento técnico e médico adequado. Mais treino não significa melhor desenvolvimento - muitas vezes significa apenas maior risco.
Prevenir é proteger o futuro
A prevenção ortopédica em idades jovens passa por medidas simples, mas fundamentais:
· Ajustar a carga de treino à idade e fase de crescimento;
· Respeitar períodos de descanso e recuperação;
· Promover diversidade de movimentos e modalidades;
· Escutar as queixas da criança ou adolescente, sem as desvalorizar;
· Recorrer a avaliação médica especializada perante sinais persistentes.
A consulta ortopédica ou de medicina desportiva não deve ser encarada como um recurso apenas quando a dor já limita a atividade. Deve ser vista como uma ferramenta preventiva, capaz de orientar, ajustar e proteger.
Conclusão: crescer com movimento, não com dor
A prática desportiva na infância e adolescência deve ser promotora de saúde - não uma fonte de dor crónica ou lesão precoce. Crescer com movimento é essencial, mas crescer com dor não é normal.
Identificar sinais de alerta, agir atempadamente e respeitar a fisiologia do crescimento é investir na saúde músculo-esquelética do adulto de amanhã. Porque no desporto jovem, tal como na ortopedia, prevenir continua a ser a melhor forma de cuidar.

