Na era em que o dinheiro cabia na carteira, o crime tinha uma certa previsibilidade: o ladrão apontava a arma, levava o telemóvel, as notas e moedas, talvez o carro. Hoje, o assalto continua a ser físico, mas o saque é invisível. Já não é tanto o relógio de ouro que se furta; sequestra-se a password e o acesso a uma carteira digital que vale, por vezes, mais do que muitas casas.
Em França, uma magistrada e a mãe foram raptadas e mantidas numa garagem durante 30 horas. Os raptores não queriam joias nem cartões de crédito: exigiam mais de um milhão de euros em bitcoins, ameaçando com mutilações. Antes disso, o criptomagnata David Balland viu um dedo ser-lhe cortado para acelerar a transferência das suas moedas digitais. O crime tradicional encontrou um novo menu: violência física como instrumento, criptomoeda como objetivo.
Do outro lado do canal, no Reino Unido, Helen e Richard passaram anos a investir na criptomoeda cardano, com a disciplina de quem poupa tijolo a tijolo para comprar casa. Um dia, uns hackers entraram na nuvem onde guardavam os dados das carteiras e, num ataque silencioso, levaram 267 mil euros.
O crime pode também ser subtil, sem violência física. Um relatório da Juniper Research mostra que, só em 2025, as redes sociais lucraram cerca de 4,4 mil milhões de euros com anúncios fraudulentos dirigidos a utilizadores europeus. Dez por cento de toda a sua publicidade. Cada europeu viu, em média, 190 anúncios de burla por mês. É como se o carteirista pagasse renda à plataforma onde trabalha - e esta fingisse não o ver, porque o negócio é muito rentável.
Já não é preciso atravessar um bairro escuro para se ser assaltado. Basta abrir a app do banco, seguir um "investidor de sucesso" no Instagram ou guardar as chaves das carteiras num serviço de nuvem sem imaginar que, algures no Mundo, alguém compra bases de dados roubadas.

