A tragédia que se abateu sobre os portugueses por ocorrência do incêndio devastador de há dias em Pedrógão Grande justifica vários sentimentos e diferentes abordagens ou avaliações.
Por um lado, perante um cenário de morte e morte violenta, como todas as que ocorreram - e foram muitas, nunca foram tantas! - temos uma primeira reação de recolhimento e choque.
Quando o drama e o horror nos entram pela casa dentro e nos batem nos olhos e na alma, gera-se um misto de incredulidade e revolta que nos paralisa e, aparentemente, só o silêncio, o silêncio de respeito, o silêncio de homenagem, parece ser uma resposta digna e à altura da tragédia.
Num segundo momento e fazendo jus a uma fama que não começou hoje, os portugueses mobilizam-se numa onda solidária, que impressiona quem assiste ou participa e que, quero crer, pode funcionar como um bálsamo para o estado de dor, abandono e solidão daqueles que tudo perderam, sendo que "tudo", neste contexto, é tudo mesmo!
Contudo, passado o estado de emergência - seja combater o incêndio, seja ocorrer aos sobreviventes - deparamo--nos com perguntas, inquietações e perplexidades.
E, esse conjunto alargado de perguntas sem resposta cabal, aumenta à medida que presenciamos o comportamento daqueles que, por força das funções ou missões que ocupam, deveriam ser os mais lestos ou eficazes no esclarecimento dos factos ocorridos.
Reparemos no comportamento dos nossos governantes e responsáveis máximos.
Na fase um do argumentário, nem se deveria falar da tragédia, pois isso seria "aproveitamento político" do sinistro.
Enquanto a Oposição escolhia a via moderada e responsável de pedir que se colocassem perguntas (sim, nesta fase, nem perguntas se podia formular!), a versão "oficial" já apontava com assertividade e certeza que tudo era imprevisível, incontrolável e impossível de evitar. No fundo, jogava-se a tese do fenómeno natural mas anormal, que nem o mais preparado dos sistemas de deteção e combate podia evitar ou contrariar.
Mas, para benefício do apuramento da verdade e prejuízo da versão oficial, todos tivemos, durante vários dias, os canais de televisão e rádio a transmitir, "in loco" e de forma exaustiva o incêndio, mas, mais do que o próprio incêndio, os dramas materiais e humanos, bem como a confusão e (des)coordenação no terreno e a que chamam "teatro de operações".
Na fase dois, para meu espanto e num novo "discurso" que ameaça fazer escola (e um pouco ao estilo daquele ministro que, confrontado com uma manifestação de protesto em frente ao seu Ministério, decidiu descer à rua e integrar a própria manifestação...) os nossos governantes abdicaram de responder como lhes compete e passaram a mimetizar o coro de perguntas que todos dirigiam ao Governo.
Ou seja, o Governo que deveria responder, passou a ser o Governo que faz perguntas!
Se esta moda pega, ainda vamos ter um dia o nosso selecionador de futebol, Fernando Santos, confrontado com uma derrota, perguntar publicamente como foi possível terem escolhido aqueles jogadores e terem feito aquelas substituições....
Neste momento, temos mil perguntas e poucas, muito poucas respostas.
Não vale a pena tentar empurrar a responsabilidade para o passado ou calar as vozes que crescentemente exigem respostas e, especialmente, garantias de que nunca mais o Estado falha em toda a linha na confiança que deve gerar aos portugueses, nomeadamente quanto à sua segurança.
Os que morreram, os feridos, os familiares que sobreviveram e todos foram (des)comandados naquele dia - bombeiros, INEM, Cruz Vermelha, GNR e todos os outros - têm direito a uma explicação e uma explicação que não insulte a nossa inteligência e tudo quanto vimos e ouvimos naqueles dias.
E que não falte - ao menos isso não falte - a devida reparação aos que perderam familiares, casas, empresas e a quem nada resta senão... confiar no Estado.
Se nos remetermos ao silêncio, a culpa prepara-se para morrer solteira...
*DEPUTADO DO PSD
