As cidades são tempo, espaço e pessoas, em interação. Na sua expressão física, muito nelas se apaga e reescreve. Em Braga, boa parte do que ficou foi realizado há cerca de 500 anos.
Sim, claro que, com 80.000 habitantes, predominam as áreas urbanas recentes. Por outro lado, Braga tem mais de 2000 anos. Mas, se a cidade romana era enorme - talvez a maior nas partes das províncias de Galécia e Lusitânia que hoje constituem Portugal -, a sua decadência na Idade Média foi brutal. Por isso, a maioria associa-a ao espaço consolidado do século XIX - porque a "periferia" ainda está a "fazer cidade" - e esse é definido a partir da muralha medieval. Aí, predominam as marcas de D. Diogo de Sousa, que reergueu a cidade, de pequeno povoado ao que ela hoje é no seu centro.
Tendo estado em Évora, Porto (onde foi bispo) e Paris, terá sido em Roma que se inspirou. D. Diogo mandou abrir grandes praças junto às portas da muralha gótica: Campo da Vinha, Campo de Santana (hoje Praça da República e Avenida Central), Largo Carlos Amarante e Campo das Hortas. Além disso, fez abrir ruas entre elas, construindo um anel circular e promoveu a regularização e expansão do eixo Souto-Dom Diogo de Sousa. Preocupou-se também em modernizar o sistema de abastecimento de água e na criação de condições para a venda de produtos, em galerias com colunas, como a que resta junto ao Paço Arquiepiscopal (atual Reitoria). Tudo à "custa da sua fazenda", numa cidade cuja população terá duplicado.
Com ele, os princípios da Renascença são introduzidos em Portugal, expandindo-se depois a outras cidades. E, todavia, poucos o conhecerão. Porquê? Porque a Renascença é menos atraente que o gótico ou o barroco? Ou porque a inovação entre nós não entrou por Lisboa (ou Porto)?
*Geógrafo/Professor da Universidade do Porto

