Há quem seja capaz de associar os nomes dos jornalistas americanos Woodward e Bernstein à investigação que os tornou famosos, o escândalo Watergate - mas talvez não saiba que, se não fosse uma jornalista portuguesa chamada Felícia Cabrita, o escândalo Casa Pia poderia continuar a ser hoje, como há algumas décadas, não mais do que um segredo de Polichinelo. Ou seja, algo sabido por todos (ou muitos) capazes de jurar que não sabiam de nada… Não conheço essa minha colega, pelo que sou insuspeito; mas acho que temos um dever de gratidão para com ela, pois, se não fossem a sua coragem e a sua tenacidade, talvez viessem a ficar impunes crimes escabrosos ocorridos à sombra de uma instituição criada para proteger crianças, não para as deixar cair nas mãos de tarados.
Mas será que não ficarão impunes para sempre? A verdade é que, terminado o julgamento, de concreto só há um culpado. Quanto aos restantes cinco, gritam que não praticaram um crime, um só que seja, e que estão inocentes como pombas. A ex-provedora Catalina Pestana, que não tem papas na língua, apressou-se a dizer aquilo que muitos de nós receiam: que, de recurso em recurso, os (alegados) inocentes hão-de conseguir que o caso prescreva. Como sugeriu, é tudo gente influente, com bons conhecimentos, e não é difícil arranjar com que o processo vá ficando convenientemente para trás. Só espero que a Justiça em Portugal ainda não tenha descido tão baixo!
Se não, prevaleceria o velho provérbio segundo o qual "quem tem amigos não morre na cadeia". E quem tem amigos nas televisões consegue mesmo mais: um despudorado (e gratuito…) tempo de antena aproveitado para jurar que, a haver vítimas, ele se conta entre as primeiras. Isto na RTP, a tal do "serviço público"…
