Está a acontecer. Discretamente, mas com uma regularidade já digna de estatística. As urgências de obstetrícia ora estão fechadas, ora estão "a funcionar com constrangimentos". Como resultado, as grávidas entraram em modo peregrinação, a saltar de hospital em hospital, dentro de ambulâncias, à procura de um sítio seguro para parir.
Como não há hospitais em cada quarteirão, a biologia vai fazendo o seu trabalho. E assim, de quando em quando, nasce um português na traseira de uma ambulância. Em dias mais inspirados, nasce mesmo na rua. Ao ar livre. Nacional e espontâneo.
Faço aqui um ponto de ordem: está a nascer uma nova profissão com enorme potencial de empregabilidade - o bombeiro-parteiro. Esqueçam voluntários, municipais ou sapadores. O futuro está nos partos. Se a tendência continuar, os bombeiros terão de rever carreiras, suplementos de risco e grelhas salariais.
Mas atenção: é preciso formação. Imagino já os quartéis, fora da época dos fogos, a treinar com afinco. Trocam-se mangueiras por cordões umbilicais, extintores por seringas, capacetes por máscaras cirúrgicas. Tudo em nome da polivalência.
Inspirado no negócio da saúde, antecipo já as ambulâncias-maternidade privadas, tripuladas por bombeiros-parteiros, a faturar com entusiasmo ao orçamento público. Mediante um suplemento, poderão ainda oferecer serviços premium, como a escolha do local de nascimento - Cascais, Foz do Porto ou equivalente - porque, como se sabe, o código postal também conta para o pedigree.
Bombeiros deste país, esqueçam os fogos. Apostem nos bebés, que é dinheiro em caixa.

