Os tons laranja e avermelhado definem as paisagens das longas estradas com o horizonte a perder de vista. Os imponentes embondeiros vão pautando a marcha acidentada dos caminhos que nos levam a sítios inóspitos e belos. À medida que saímos de Luanda, o frenesim, o caos, a enchente das ruas, o comércio de tudo e mais alguma coisa, o trânsito desorganizado, os musseques vão dando lugar a casinhas de telhados e paredes em chapa. O destino eram as “Quedas de Kalandula” na província de Malanje. Enquanto avançamos para o interior de Angola, gradual e calmamente, sem pressa, a chapa das casas vai sendo substituída por colmo, barro e folhas de palmeira. Seguimos à conversa e a ginguba vai servindo de petisco numa viagem em que o desafio de fugir aos buracos da estrada dificulta os únicos disparos que fazem sentido: os da máquina fotográfica ou do smartphone que complementam o registo da nossa memória.
Volta e meia, encontramos uma “área de serviço”. São muito diferentes daquelas que usamos na Europa mas os propósitos assemelham-se. Regateiam-se preços no mercado de frutas e legumes, lavam-se carros e camiões. Vendedores de “marufo” vão aparecendo mais ou menos sorrateiramente à beira da estrada e encurtam as distâncias entre as aldeias que nos surgem na rota. As pessoas que caminham num sentido ou noutro vão acenando e sorriem. As crianças correm atrás do jipe, felizes e livres. As matriarcas carregam água e com olhar vigilante observam cuidadosamente quem passa.
Encontramos placas com indicações para fazendas agrícolas e outdoors em chinês. Paramos em N’dalatando para uma pausa. Novamente a azáfama da urbe. Edifícios de outros tempos intercalam com novas construções por ventura algo desordenadas. Ainda nos faltam umas horas para chegar e a ameaça da escuridão da noite apressou-nos a paragem. Seguimos viagem e as aldeias e as pessoas vão rareando. Há pouca rede (ou nenhuma) e as falhas do GPS obrigam à leitura tradicional dos mapas. A última cortada para a estrada final, em terra batida, acontece ao cair da noite.
Eram seis da tarde. Quando chegamos à pousada ainda vemos as quedas de água que se vão escondendo na névoa de final de dia. O barulho intenso da água a bater nas rochas vai alternando com uma calmaria breve do curso do rio Lucala. Que paz. Que sossego. Que simplicidade. Parece que não falta nada...…
O tempo parece parar no barulho constante da água, e várias são as reflexões que me vão surgindo desta experiência tão diferente do meu agitado dia a dia. É verdade que falta muito do que gostamos de chamar desenvolvimento, mas que lugar damos à paz e à tranquilidade nas nossas vidas? E o que nos falta a nós, nas nossas vidas repletas de agitação e preocupações?
Ali, naquela terra de contrastes, o tudo e o nada terão provavelmente significados diferentes. Penso nas pessoas que encontrámos na viagem. Penso no futuro das crianças, das raparigas e dos rapazes, das mulheres e dos homens. Dos velhos. Será que são felizes? E nós?
