A imagem é bonita e surpreendente. Não por existir alguma surpresa quando um casal é fotografado de mão dada, mas por estarem alheados do que está à volta, como se estivessem absurdamente sozinhos numa rua vazia de pessoas e de perigo. Não consigo desligar-me da imagem de Volodymyr e Olena num passeio de Kiev, juntos e íntimos, inquebrantáveis num pacto de vida e de morte. Naquele segundo, são um casal normal de meia-idade, comprometidos um com o outro, sem sombra de conflito, de guerra, de qualquer tipo de pressão que os faça interromper aquele microssegundo de partilha. Parecem não ter medo do risco de terem dois filhos ou do que possa suceder amanhã, no dia de Trump em que Zelensky terá de decidir pela capitulação ou pela honra ou então virar ao contrário a mesa das negociações. Ele e ela que adoravam dar escapadinhas em hotéis de fim de semana, que trocavam livros e filmes, que tinham rotinas de espetáculos todos os meses, de cinema todas as semanas, de um jantar fora aos sábados com os miúdos. Talvez tenham pensado nessas trivialidades perdidas, quando tudo parecia em paz, antes das infindáveis mortes, antes de uma vida em que todos os dias podem ser o último, antes do desafio brutal que o destino lhes propôs: terem de se transformar em gigantes quando pareciam pessoas normais. Naquela imagem estão congelados numa intimidade apenas deles. Quando os observamos, de mão na mão, percebemos que não os conhecíamos antes de os ter visto assim.
Leitura: 2 min

