A demissão de uma ministra não é motivo de festa, mas uma evidência de que os erros são admitidos, e de que há consequências políticas. A saída de Maria Lúcia Amaral da Administração Interna, exigida ao longo de duas ininterruptas e chuvosas semanas, alivia as críticas ao Governo, por um lado, e acalma a sociedade civil, que ficou sem uma voz de comando e de garantia de que tudo estava a ser feito numa das experiências climáticas mais excecionais de que há registo recente. A função de ministro não se encerra na competência técnica, de trabalho "invisível" como descreveu a governante ao defender-se do chorrilho de acusações que lhe foi dirigido. Por mais planeamento e articulação que existam entre as paredes dos gabinetes, quem está sem teto não pode ficar "pendurado", sem uma única palavra, sem ver no terreno quem pode afinal mudar-lhe a vida ou, neste caso, até garantir-lhe a sobrevivência. E se é verdade, como disse a ex-ministra, que estamos todos numa espiral de aprendizagem coletiva, uma das lições que se destacam é a de que um ministro tem de ser mais do que um decisor. Podem apontar-se problemas de comunicação, mas ao que se assistiu foi a uma imagem de falta de empatia, de distanciamento das pessoas comuns, alagadas até à cintura. Não era Maria Lúcia Amaral que ia subir a postes e reparar as linhas de eletricidade, mas nas mais pesadas horas de uma região que ficou em estado de guerra, deixou de cumprir a função de articular a resposta política, o apoio político aos autarcas, a mobilização de todos, todos, todos os meios (a expressão virou moda). O antigo ministro do Equipamento Social Jorge Coelho demitiu-se quando caiu a ponte de Entre-os-Rios, Constança Urbano de Sousa depois dos incêndios de 2017 - mais de 100 mortos. A demissão de ministros costuma acompanhar o luto nacional, nunca é de festa, que seja de aprendizagem.
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