Não há suspeições sobre a origem do retrocesso nem citações pouco aleatórias de Karl Marx e Engels. A crise contemporânea das democracias liberais não se reduz a um só teatro geográfico ou a um único campo de batalha ideológico quando se revela, confluindo, tanto nas ruas de Minneapolis - onde o choque entre agentes federais e cidadãos americanos resultou em duas mortes inqualificáveis, intensificando a contestação pública e as mobilizações populares - como também nos corredores diplomáticos europeus e nas arenas estratégicas do Indo-Pacífico. Os eventos de Minneapolis tornam palpável o risco que a erosão do respeito pela legalidade representa para a democracia americana, transformando um esboço de guerra civil numa bandeira de demonstração da agressão americana no Mundo.
O respeito pelo direito internacional - entendido desde a inviolabilidade das fronteiras até à proteção dos direitos humanos e às normas que governam o uso da força - constitui a linha mestra que distingue a governança democrática da arbitrariedade autoritária. Para além da sua função normativa, o direito internacional é um mecanismo de estabilidade: reduz incentivos à escalada violenta e oferece canais para a resolução pacífica de conflitos. Seja na defesa da soberania ucraniana face à invasão russa, seja na reafirmação de que nenhum Estado tem o direito de anexar território alheio na Europa ou no Ártico, como ressaltou recentemente a diplomacia da UE em resposta às ameaças de Donald Trump sobre a Gronelândia. Há um padrão geopolítico clássico no qual líderes em dificuldades domésticas recorrem a "política de distração". O ataque ou escalada militar contra o Irão está agora em curso para desviar a atenção interna e consolidar apoio eleitoral em tempos de escrutínio e de tentativa de ocultação dos "Epstein files".
A primeira resposta firme de Bruxelas em defesa do direito internacional e da soberania dinamarquesa ilustra uma verdade geopolítica essencial: a unidade das democracias não é apenas um ideal normativo, mas um imperativo estratégico concreto para deter tanto agressões externas quanto tendências internas que subvertem o Estado de direito. O respeito pelo direito internacional, sustentado por uma união robusta das democracias - com a União Europeia ou o Canadá como pilares de uma resistência normativa eficaz - permanece a nossa melhor garantia contra a fragmentação democrática, a violência institucional e o imperialismo disfarçado de política interna ou externa. A história do século XXI está a ser escrita tanto nas ruas de Minneapolis quanto nas negociações entre Bruxelas, Ottawa, Pequim e Moscovo. A forma como respondemos coletivamente determinará se prevalecerá um Mundo de regras ou o imprevisível domínio do poder bruto.
*O autor escreve segundo a antiga ortografia

