Um cravo vermelho com uma etiqueta no caule. 1.º de Maio de 1974. Estava guardado nas coisas da minha avó. Entre cartas e documentos. Um cravo com 48 anos, conservado como uma preciosidade. Assim como um "Jornal de Notícias" de 2 de Maio do mesmo ano com a fotografia da Avenida dos Aliados completamente cheia na capa e letras garrafais declarando: 1.º de Maio: o povo mereceu a liberdade!
Duas recordações do Primeiro de Maio fundador da nossa democracia, naqueles dias intensos que Abril pariu. Duas recordações, guardadas pela minha avó, que não sendo uma pessoa ativa politicamente, sabia bem o tanto que tinham sido longos aqueles 48 anos de mordaça. Duas recordações que dizem muito da importância daqueles dias, para a minha avó e para todas as mulheres portuguesas.
Ainda assim, 48 passados e depois de tantas conquistas no que diz respeito aos direitos das mulheres, não deixa de ser irónico que o Dia da Mãe calhe num Primeiro de Maio, num país em que ser mãe trabalhadora é duríssimo. É até paradoxal que os louvores à abnegação materna e ao mito da mãe-guerreira (típicos do primeiro domingo de maio) se sobreponham ao Primeiro de Maio. E para que faça sentido é preciso ainda muita luta!
É preciso que a maternidade e a paternidade tenham o mesmo peso social, porque enquanto o trabalho reprodutivo e doméstico pesar mais para um lado, essa desigualdade vai reproduzir-se também na esfera profissional. Perpetuando-se um modelo de sociedade em que as mulheres doam o seu tempo e o seu esforço ao cuidado da família, para que os homens possam perseguir as suas ambições profissionais, ganhando sempre menos (mesmo com mais qualificações). É preciso que as licenças de maternidade, além de mais longas, sejam para ambos os pais em simultâneo. É preciso que os horários de trabalho sejam mais ajustados aos horários escolares e que deixe de existir a cobrança de disponibilidade total para horas extra ou reuniões ao final da tarde sem hora para terminar. É preciso acabar com a precariedade e com a tendência para a não renovação de contratos com mães recentes. É preciso que as promoções não sejam apenas para quem não tem responsabilidades parentais, para que, na ascensão das carreiras, as mulheres não fiquem para trás.
É preciso disseminar a consciência que essa conceção romantizada da maternidade-serviço é uma das mais cruéis armadilhas do patriarcado e do capitalismo e tem como resultado a exaustão das mulheres. Depositar no amor incondicional e numa suposta predisposição natural e instintiva das mães para o cuidado a sua exploração e sobrecarga, desresponsabilizando os demais, é uma forma de violência e abandono. Depois não vale a pena lamentar que nascem poucas crianças em Portugal.
*Música

