A causa ecologista é cada vez mais comum nas campanhas eleitorais e nos discursos dos políticos nacionais.
O grande problema é que, muitas vezes, é apenas um discurso de Miss Universo. Bem-intencionado, mas vão, que não passará do plano do wishful thinking e que só é proferido porque fica bem. A questão é que, ao contrário das misses, os políticos que ascendem ao poder podem de facto fazer alguma coisa para concretizar as supostas boas intenções.
Sabemos todos que as questões ambientais são, na maioria das vezes, esmagadoramente globais (na escala de atuação e de impacto) e que é fácil ficarmos assoberbados pela nossa impotência perante a dimensão dos problemas, a complexidade das soluções, os impasses de geopolítica e a resistência dos grandes interesses. Tudo parece conspirar para que baixemos os braços porque, vendo bem, o nosso contributo será sempre insuficiente.
No entanto, é ainda mais desolador perceber que mesmo na escala local, em que aparentemente poderíamos ter maior capacidade de mudança e de resistência, os interesses, o descaso político e a avidez do capitalismo parecem sempre falar mais alto.
E que, apesar da pressão dos movimentos de cidadãos e das associações ambientalistas, os autarcas e o Estado central fazem ouvidos moucos aos seus próprios discursos de campanha, ignorando por completo a agenda ambientalista, em prol da expansão turística e imobiliária.
Das dunas de Troia às Alagoas Brancas de Lagoa, temos assistido a um braço de ferro entre as populações, organizadas e ativas, na defesa da biodiversidade dos ecossistemas das suas localidades, e as autarquias, mais preocupadas em viabilizar negócios milionários. Ora, toda a gente percebe que trocar uma zona de duna, com espécies protegidas, por um grande projeto turístico, num concelho que tem resorts e campos de golfe tão extensos que impedem o acesso às praias e que chegam a ultrapassar em área as vilas mais próximas, não é um caso pontual, mas antes a consolidação de uma política autárquica antagónica ao bem comum e que alega "interesse público" na defesa do património privado, empreendimento após empreendimento.
É também bastante óbvio que construir um retail park numa zona húmida, pantanosa, que é habitat para aves migratórias e outras espécies protegidas, não é apenas um atentado ao meio ambiente, como é pouco avisado do ponto de vista da segurança futura do próprio empreendimento, pelo risco permanente de inundação. E é sempre muito triste perceber que o dinheiro fala mais alto do que a preservação da biodiversidade, dos recursos hídricos, da paisagem e do acesso de todos ao bem comum, mais ainda, quando vemos autarcas de Esquerda (contra o seu povo) na defesa dos interesses privados.
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