Uma primeira referência para as vítimas. Os que morreram, os que perderam os seus bens, os que sobrevivem em casas semidestruídas, os empresários e trabalhadores cujo ganha-pão desapareceu ou está ameaçado, as centenas de milhares que ficaram sem eletricidade, sem água, sem comunicações, e os muitos milhares que, quatro dias depois, continuam isolados, sem acesso a serviços essenciais. Não interessa qual a cor, o partido, a religião, nem sequer a nacionalidade destas pessoas. São nossos vizinhos, conhecidos, amigos, familiares. Mas do que esta gente precisa, na verdade, não é de palavras, é de soluções. Precisa que o Estado mobilize os meios que tornem a vida suportável no imediato, e que permitam recuperar a normalidade possível logo a seguir. Do que esta gente não precisa, nesta altura, é de debates político-partidários, de tentativas apressadas de encontrar responsáveis para o caos, de retórica populista. Se algum político deteta um erro ou omissão, que o denuncie, mas que não atrapalhe. Haverá um tempo para avaliações técnicas e discussões políticas. Não é este.
Uma segunda referência para a falta de vergonha de um dos candidatos às presidenciais. Também pelo contraste. António José Seguro foi visitar, logo na primeira noite, as zonas de catástrofe, sem comitiva, sem jornalistas. André Ventura decidiu que uma catástrofe é o cenário ideal para o seu circo mediático, incluindo selfies no meio dos destroços, discursos inflamados, e umas quantas paletes de garrafas de água. Transferiu a campanha para o meio da desgraça, procurando criar a imagem do homem providencial. Na verdade, é o predador que sente o cheiro a votos. "Que se lixem as eleições", diz, enquanto reafirma que está ali enquanto candidato. O autarca de Leiria foi direto ao ponto: "é ridículo". Ventura, ripostou: "quem está preocupado hoje com picardia política está do lado errado da História", de novo fingindo não reparar na contradição. Se alguém tem dúvidas, que as dissipe: é o líder do Chega, com a sua demagogia, que está do lado errado da História.

