Quando a cidade era densa e habitada, no que chamávamos "a Baixa", seu coração e pulmão, as ruas eram das pessoas.
E, por isso, andava-se a pé, falava-se (uns com os outros) e negociava-se pelas ruas tudo quanto a fantasia, a necessidade ou o prazer exigiam. De gravatas (vendidas por chineses que falavam à moda do Porto) a azeite e carvão, a pentes, aventais, meias e até água com sabor a limão. E muito mais. Nessa humanidade ao nível do rés-do-chão destacavam-se figuras emblemáticas como o Se Zé Maria, aldeão que veio para o Burgo ganhar a vida vendendo castanhas no Inverno e "sorvetes" no Verão.
Parava à porta da universidade prática de gerações de homens das contas, chamada Escola Oliveira Martins, na Rua do Sol. A meio da manhã o saco das castanhas (assadas em sua casa) ficava vazio e ele pausava bebendo uns copos nos tascos do Ferraz ou do Custódio, estações de serviço da zona.
Quando a freguesia não tinha dinheiro, o Se Zé dizia "Paga quando tiver", ou "Paga quando for homem" e assim aconteceu com muitos que não o esqueceram. Profissional esmerado, quando o director da escola o advertiu para o lixo das cascas no passeio, passou a andar munido de vassoura e apanhador e a fazer pedagogia relativamente à limpeza da rua, tal como acontecia contra "as palavras feias" que "ficavam muito mal em rapazes decentes". Disse-me um sobrevivente deste mundo: "As suas palavras ainda hoje ecoam nos nossos ouvidos e na nossa memória". Por tudo isto, os vendedores ambulantes que mantêm a cidade com vestígios de identidade devem ser tratados como Património. Nem mais, nem menos.

