Esta semana, seja na entrevista do primeiro-ministro, seja nos alertas do presidente da República no discurso das cerimónias do 5 de Outubro, ficou clara a existência de dois países que em nada se tocam.
Por um lado, temos o país real, ou seja, o país do Serviço Nacional de Saúde a colapsar, das escolas sem professores, das pessoas sem acesso a habitação ou dos impostos máximos que teimam em aforrar os cofres do Estado, enquanto as dificuldades se avolumam para os portugueses.
Por outro, temos o país “oficial”. Foi a expressão usada pelo presidente da República e que corresponde ao país do Governo, onde aparentemente está tudo bem. Infelizmente, as pessoas vivem no país real. Sendo o Governo incapaz de o conhecer ou enfrentar, a capacidade que o Executivo tem de reformar os inúmeros setores que precisam de intervenção imediata é diminuta, porque só tendo noção da realidade será possível apresentar as soluções que o país precisa.
É, aliás, paradigmático que o primeiro-ministro na entrevista que deu tenha, a dada altura, lamentado que a realidade tenha avançado mais depressa do que o conjunto das medidas por si apresentadas. Foi talvez a maior assunção de culpa do chefe de Governo e que ajuda a explicar o fiasco de muitas das políticas apresentadas pelo executivo. Mas se o Governo, em oito anos, foi incapaz de antecipar problemas e acompanhar a realidade, que expectativas podemos ter para que agora seja diferente? Poucas, compreensivelmente.
A situação é manifestamente grave em várias áreas. A saúde é um desses exemplos. Recentemente, a Ordem dos Médicos veio já alertar para o risco de 25 hospitais deixarem de assegurar vários serviços nos próximos meses. Exaustos, os profissionais de saúde que em tempos mereciam as palmas à janela no tempo da pandemia têm agora sido votados à incapacidade de o Governo responder à insustentabilidade e caos em que o setor da saúde se encontra. O número de quatro milhões de horas extraordinárias que os médicos fizeram nos primeiros oito meses do ano é apenas um dos muitos motivos para que exijam mais ao Governo do que se limitar a anunciar reforços orçamentais que, não raras vezes, ficaram em parte por executar. E ainda que assim fosse, se o Orçamento sobe e os resultados pioram, não é motivo suficiente para que o Governo se questione sobre as decisões que tem tomado? O bom senso diria que sim. Mas o país oficial responde que não. E continua a fazer tudo da mesma forma, esperando obter resultados diferentes. Era esta a definição de insanidade para Einstein. Tem sido este o mote do Governo nos últimos oito anos.
