As cidades não estão desenhadas para permitirem a melhor qualidade de vida de humanos e animais. Temos dificuldades no usufruto de espaços desafogados, arborizados, ajardinados, perdemos os quintais caseiros e as ruas para andar sem riscos. Amontoamo-nos no seio das multidões, onde os únicos animais com foros de ganhadores são gaivotas e pombas.
Nos tempos idos da minha infância, casa que se prezasse tinha gato, como parte do agregado familiar. Agora, em tempo de solidões, usa-se o cão como companhia. O gato perdeu o lugar, pois não dá para usar trela e era, nas suas manias, mais requintado e, acho eu, mais esperto. Não ladrava por tudo e por nada.
A minha admiração pelo felino, em nada diminui a consideração pelo canídeo. Reservo a desconsideração para alguns donos que, como sucede nas ruas de Santa Joana e Francisco de Almeida, em zona de milhões (digo euros), deixam os compinchas do passeio higiénico dejectarem nos passeios, onde temos de andar a olhar o chão. E assim estragam a doçura de viver em bairro chique.
Mas, em matéria de animais, a maior surpresa que encontrei, foi o anúncio num jornal do Porto, informando: "Vendem-se a 16 reis cada um, na Imprensa Civilização - Rua de Passos Manuel, 211 a 219". Vejam: "Testamentos dos Diversos Animais, designadamente: Galo, Cão, Porco, Gato, Carneiro, Galinha, Burro, Cavalo, Boi, Coelho, Rapoza e Rato". Fiquem, pois, atentos: não estamos livres de, um dia destes, aparecer proposta legislação no sentido de os donos dos animais tratarem de lhes proporcionar, em Cartório, o respectivo testamento. Vivemos numa época moderna.
*O autor escreve segundo a antiga ortografia

