Como é possível ouvir referências à baixa taxa de criminalidade que hoje se regista em Washington e noutras cidades norte-americanas numa conferência de Imprensa supostamente dedicada a explicar a captura do presidente da Venezuela e da sua mulher? Para tornar a equação mais esdrúxula, Donald Trump e o seu secretário de Estado, Marco Rubio, fizeram ameaças à Colômbia, a Cuba e até à Gronelândia? Se o Mundo estiver mais seguro, na ótica muito peculiar de Trump, os norte-americanos dormem melhor.
Estamos a viver a era da doutrina Donroe, uma deturpação, tanto na essência como na forma, do ideário Monroe. Há quase exatos dois séculos, o presidente James Monroe traçou uma linha imaginária no Atlântico. "A América para os americanos", decretou. O slogan, que nasceu em 1823 como um escudo contra as monarquias europeias metamorfoseou-se num argumentário de intervencionismo militar global e imprevisível. Estamos perante um presidente-empresário, em proveito próprio (bastou-lhe um ano para duplicar a sua fortuna) e da nação. Este último aspeto ficou bem patente quando declarou que as petrolíferas norte-americanas vão investir e extrair o máximo de petróleo que puderem, em benefício dos venezuelanos e, já agora, dos EUA.
Trump não é o primeiro presidente a distorcer as ideias de Monroe. Theodore Roosevelt proclamou em 1904 um direito geral de intervenção, que na realidade já tinha posto em prática ao atiçar os panamianos a declararem a independência face à Colômbia. Ele admitia o "exercício de uma força de polícia internacional". Em 1905, os EUA estabeleceram um protetorado financeiro na República Dominicana e, em 1906, ocuparam Cuba. O Mundo está mais inseguro e, sobretudo, imprevisível.

