Na semana passada, o país perdeu dois dos seus melhores. António Lobo Antunes e Nuno Morais Sarmento. Evocá-los significa não só fazer uma homenagem, mas também lembrar o que foi o contributo de ambos para construir um Portugal diferente.
Vou começar por António Lobo Antunes, personalidade que não tive o prazer de conhecer a não ser através dos seus livros cujos títulos nos deixavam logo com curiosidade. Diferente de José Saramago, Lobo Antunes foi um escritor que integrou uma geração que só foi dado a conhecer à minha quando, já há muito, tínhamos deixado os bancos da escola e do liceu.
Com uma escrita assertiva, Lobo Antunes soube passar ao papel o drama daqueles que estiveram na guerra colonial e contar as suas hesitações, as muitas dúvidas e a imensa solidão dos que foram soldados, independentemente da sua condição social. A homenagem que o país lhe dedicou, através de um dia de luto nacional, acaba por ser modesta em face do que ele, aqui ou ali, nos ajudou, a todos, a saber falar do nosso medo e das nossas idiossincrasias.
Depois, Nuno Morais Sarmento, o Nuno, que eu conheci muito cedo na JSD, logo no início dos anos 80, como um espírito libertário e alguém que gostava de uma boa luta ou não tivesse sido ele um antigo lutador de boxe. O Nuno não se alinhava com ninguém, mas não deixava de ter espírito para assumir uma boa causa para aquilo que achava ser o correto e o justo. Admirador de Francisco Sá Carneiro, integrou a "Nova Esperança" no ciclo cavaquista e, depois de fazer o seu circuito de formação académica, assumiu-se como um dos mais importantes baluartes do que foi a liderança de Durão Barroso no PSD. Podia ter sido líder do partido, mas preferiu fazer, muitas vezes, as pontes entre as várias sensibilidades porque para ele o mais importante seria Portugal. Nunca foi um indefetível de alguém e sempre soube guardar a dignidade no exercício da função com coragem, quando, por exemplo, admitiu a sua toxicodependência na televisão. A última vez que estivemos juntos foi na campanha à liderança do PSD de Rui Rio e depois ambos integramos o Conselho de Jurisdição Nacional.
O Nuno Morais Sarmento, ao lado do Miguel Macedo, representa o lado ingrato da minha geração porque foram mais cedo embora quando ainda tinham muito para dar à nossa comunidade.
Esta semana, o país, provavelmente, já deve estar com outras preocupações, mas eu não podia deixar de fazer estas duas evocações quase como uma ponte entre as duas gerações. Eram as pedras que estavam no arco daquela ponte que Italo Calvino nos falava quando Marco Polo respondia a Kublai Khan: "A ponte não é sustentada por esta ou aquela pedra, mas pela curva do arco que estas formam".

