Há situações cujo nexo me escapa. Quando no Porto moravam trezentas mil pessoas, íamos ao Jardim do Morro, em Gaia e víamos as luzes, de milhares de janelas iluminadas de S. Bento da Vitória até Miragaia, dos Guindais até às funduras de S. Nicolau. A luzir, em cascata esfusiante.
E vieram os anos de decadência urbana e êxodo dos portuenses enxotados do Centro Histórico e o que era a visão fantástica de uma cidade cuja boniteza até a noite realçava, transformou-se em escuridão. Onde havia luzes passou a reinar a negrura.
Mas muita coisa mudou e grande parte do que se tornara escuro foi reabilitada e tornado habitável. Fui há dias à Serra do Pilar olhar a paisagem e, para surpresa minha, vi o Burgo vazio de luz nas janelas. E desconfiei.
E ainda mais quando atravessei a cidade antiga, a olhar para o lado, desde Massarelos ao Coliseu. A frente urbana de Miragaia está quase um brinco (até um edifício setecentista, em ruínas desde a minha infância, foi nobilitado). Mas, quanto a luzes, nicles. Subi Mouzinho. Há dez anos era a anti-cidade, deserta, ao abandono. Está como nova, mas nada de andares iluminados. De Sá da Bandeira e Rua Formosa nem se fala. Só arquitectura, mas sem gente.
E pus-me a pensar: algo não bate certo. Quando o Burgo está a ficar que se veja e o abandono se converte em cidade, onde param os moradores? Isto devia estar eufórico, com habitantes e não com ar de cemitério nocturno. Estarão as habitações a "aquecer" para efeitos de mercado? Serão peças de museu? Apenas cenário? À espera de vistos gold? (Vou consultar o Guru do Bandeira, a ver se me responde.)
* Professor e escritor
O AUTOR ESCREVE SEGUNDO A ANTIGA ORTOGRAFIA

