Quando, em 2021, aceitei o convite para fazer parte deste jornal, ainda estávamos a vacinar-nos contra a covid. De repente, as nossas conversas com amigos tinham de incluir sempre a pergunta "Tu levaste qual? Eu levei agora a da Pfizer. Ah, levaste a da Janssen? Olha que dizem que essa não é tão boa. E a da Moderna? Eu acho que levei uma dessas". Tornamo-nos especialistas em laboratórios farmacêuticos e passámos bons momentos em conjunto a fazer trocadilhos marotos com a recém-descoberta palavra "inoculação". Também nesse ano, estivemos todos colados ao ecrã, durante mais de três horas, a ouvir a decisão instrutória do Processo Marquês pelo juíz Ivo Rosa. Horas em que cada um de nós esteve a chatear o colega do lado com "e isto quer dizer o quê? Que é culpado? Hum? E isto agora que ele disse? É para o Sócrates ir preso? Não? Raios. Devia ter ido para direito". 2022 foi um ano particularmente difícil. Perdemos algumas das mulheres mais icónicas do nosso país: Paula Rego, Eunice Muñoz, Maria de Lurdes Modesto e a figura da canção nacional Linda de Suza. Por outro lado, também foi então que ocorreu um dos melhores momentos televisivos da nossa história moderna. Em junho, o ministro das Infraestruturas da altura, Pedro Nuno Santos, aproveitando a ausência do primeiro-ministro António Costa, veio anunciar em direto: "O novo aeroporto de Lisboa é aqui. Pronto. Acabou-se". No ano seguinte, ganhava ao atual de secretário-geral do Partido Socialista as eleições internas do partido e nascia ali a esperança de um grande futuro para o centro-esquerda e para todos os homens na casa dos quarenta que decidem deixar crescer uma barba. Foi também em 2023 que a cidade de Lisboa recebeu o Papa Francisco nas Jornadas Mundiais da Juventude e, graças a isso, ficámos a saber quanto custa um altar-palco. A polémica foi tão grande que, durante meses, fomos todos um bocadinho empreiteiros "Eu acho que era pôr uma viga, mandar fechar tipo marquise e revestir tudo a pladur". No ano seguinte, a maior conversa nacional foi sobre a evasão de cinco reclusos da cadeia de Vale de Judeus. Foi realmente um caso grave que expôs a enorme fragilidade das condições de segurança nos estabelecimentos prisionais. No final das contas, estavam a monte cinco condenados perigosos que, sendo imprevisíveis, puseram o país em estado de alerta. Sim senhor, foi assustador mas, quer dizer, também foi muito engraçado, pois os reclusos escaparam com recurso a um escadote. E, durante semanas a fio, pudemos ver essas imagens em loop em todas as televisões. Receio, OK. Indignação, certo. Mas também muito giro. Em 2025, rebenta o caso SpinumViva, que provocou grandes danos: a bancada do partido de extrema-direita ganhou 60 deputados e uma baixa política: a do líder da oposição Pedro Nuno Santos. Percebemos que o clima político e até social se transformou noutra coisa que ainda não tínhamos visto.
Estes últimos cinco anos foram surpreendentes. Nunca tinha imaginado escrever sobre um deputado que roubava malas de porão em aeroportos ou fictícios festivais de hambúrgueres, mas a verdade é que aconteceu. Estive mais presente aqui, nesta página, aos domingos do que nos almoços de família. Embora se tenha falado quase tanto de extrema-direita como sempre que nos juntamos à mesa. Sinto que termos tido onze eleições, neste período, contribuiu muito para que estes cinco anos parecessem vinte.
Há cinco anos, liguei à Inês Cardoso, diretora do jornal, e, a propósito de um artista que vendeu uma tela em branco por um balúrdio, perguntei-lhe se o conceito da crónica dessa semana poderia ser uma folha em branco, com duas ou três frases como legenda. Ao que ela, sem hesitar, me respondeu "O espaço é teu. Usa-o como achares melhor". E assim foi. E ainda me pagaram no final. Ajudando, aliás, a provar o ponto da espertalhice. E é esta a imagem de liberdade que levarei sempre daqui. Foi um prazer e um orgulho imenso ter tido um lugar num jornal que está a trabalhar ininterruptamente há quase 138 anos (2 de junho). Só o fôlego de quem tem ainda muita vida pela frente consegue apagar tantas velas e é exatamente essa longa vida que, enquanto sociedade livre, desejamos. Um jornal que começou em 1888 com quatro páginas e que, há cinco anos, me deu o privilégio de escrever numa.
Estes últimos cinco anos foram surpreendentes. Nunca tinha imaginado escrever sobre um deputado que roubava malas de porão em aeroportos ou fictícios festivais de hambúrgueres, mas a verdade é que aconteceu. Estive mais presente aqui, nesta página, aos domingos do que nos almoços de família. Embora se tenha falado quase tanto de extrema-direita como sempre que nos juntamos à mesa.

