É urgente humanizar a escola!
Envelhecimento e crise estrutural da profissão
A falta de professores não é um acidente: é a consequência direta de um modelo escolar que envelheceu enquanto o mundo se reinventava.
O corpo docente português aproxima-se, em média, dos 55 anos, e sabemos o que isso significa: uma vaga previsível de reformas, um vazio anunciado que, apesar de repetidamente diagnosticado, continua a ser politicamente adiado.
Não é o futuro que nos surpreende, somos nós que nos recusamos a preparar-nos para ele.
Recrutamento, retenção e novas exigências pedagógicas
Recrutar e reter professores, dar-lhes dignidade e condições de trabalho tornou-se uma tarefa que muitos consideram árdua. Acredito que, para tal, é preciso compreender que a sala de aula do século XXI pede muito mais do que o professor do século XX foi autorizado a ser: pede diálogo, sensibilidade para a inclusão, capacidade de gerir contextos cada vez mais complexos, inovação pedagógica e digital. Mas continuamos a oferecer carreiras rígidas, tempo escasso para cooperar, e um quotidiano que frequentemente isola, desgasta, desvaloriza.
A atração pela profissão docente não nascerá apenas de salários ou da segurança de emprego, mas do reconhecimento político e cultural da grande missão que é ensinar/educar. Os jovens procuram sentido, propósito, possibilidade de transformar. A docência pode oferecer tudo isso, se for tratada com a dignidade necessária. Ninguém permanece onde o seu valor é invisível.
Caminhos de transformação e renovação da carreira
É tempo de abandonar discursos e abraçar soluções. Precisamos de novos modelos que recompensem o mérito coletivo, a investigação pedagógica, a cooperação e a partilha. Precisamos de uma formação inicial enraizada em práticas reais, em escolas que acolham e acompanhem e de uma formação contínua de professores que seja de verdadeiro desenvolvimento profissional: vivo, situado, e em articulação. Mais do que reformas pontuais, precisamos de escolas que funcionem como comunidades de aprendizagem: espaços humanizados, onde professores, alunos e famílias constroem conhecimento em conjunto e sentido de pertença; onde ninguém ensina sozinho e ninguém aprende isolado.
O problema é urgente, mas a urgência não impede a esperança. A profissão docente pode renascer, basta que deixemos de remendar o velho (sistema) e tenhamos coragem de construir o novo. A escola que o futuro exige começa hoje, nas mãos daqueles que ousarem edificá-la.

