São dias agrestes estes, em que uma eleição presidencial está a dividir o país em duas partes: aqueles que lutam pela democracia e aqueles que dizem que não querem "o regresso do socialismo". Nos argumentos de cada uma, cabem reações mais ou menos musculadas da fação oposta. Umas muito violentas, é certo. No meio de tudo isto, acentua-se a fúria contra os jornalistas. Hoje, mais do que nunca, precisamos do jornalismo. Porque o caudal que jorra pelas redes sociais é muito perigoso.
Atacar o jornalismo tem sido, nos últimos tempos, uma prática comum. Em Portugal e noutros países. O caso mais crítico é o dos EUA. Neste contexto, convém perceber que o interesse de matar o mensageiro incómodo tem a ver com o propósito de dar espaço e tempo ao rumor, à manipulação profissionalizada e a todo o tipo de desordens informativas. Que não surgem por acaso. São cuidadosamente pensadas, construídas e difundidas até parecerem verdade. Ora, o jornalismo, que vive das perguntas incómodas, do confronto de ideias e da verificação de factos, é um sério obstáculo. Que precisa de ser depressa derrubado a fim de que este novo paradigma se fortaleça.
Em Portugal, os acontecimentos sucedem-se a uma velocidade inquietante, e o clima de guerra permanente instala-se numa eleição que ninguém previa nestes termos: a que escolherá que vai ocupar o mais alto cargo da nação. Um ato eleitoral que deveria representar um tempo de ponderação, de exigência democrática e de serenidade institucional degradou-se, logo na primeira volta, num espetáculo de suspeições cruzadas, ataques pessoais e discursos indignos. Não há sinais de que a segunda volta venha a recuperar a elevação perdida. Circular pelas redes sociais é hoje um exercício penoso, dominado por insultos, insinuações e campanhas de desinformação. Quando o debate público se afunda neste registo, a campanha empobrece-se e, consequentemente, a democracia vai ficando cada vez mais fragilizada.
Devemos ter consciência de que toda esta evolução nos conduz a discutir não apenas quem deve ocupar o cargo, mas sobretudo todo o sistema político. E, a esse nível, o diálogo torna-se impossível. Não é um tempo auspicioso, este. No plano internacional, a geopolítica faz-se agora com outras armas e discursos. O ódio e a ameaça parecem estar em todo o lado. E isso contamina as nossas microesferas individuais.
Neste cenário, a resistência democrática pressupõe que cada um de nós exija factos, questione narrativas, confronte boatos e proteja quem informa com rigor. Ou seja, hoje, mais do que nunca, temos a obrigação de defender o jornalismo. Mesmo nas suas imperfeições. É nessa defesa que poderemos garantir a continuidade de um espaço público plural, diversificado e livre. Proteger quem informa não é um ato de solidariedade corporativa. É um ato vital de cidadania.

