A distância entre o sistema político e o país real é hoje evidente. A sua origem está no próprio funcionamento do sistema parlamentar e na sua desconexão face ao território, em particular ao interior do país. É nesta fratura que se encontra uma das chaves explicativas do crescimento do populismo.
O sistema de listas fechadas concentra o poder de seleção política nas direções partidárias e reduz a relação direta entre eleitos e eleitores. A representação torna-se formal e pouco substantiva. A disciplina de voto reforça este padrão, limitando a autonomia individual dos deputados e transformando o Parlamento num espaço de agregação de vontades partidárias, mais do que um fórum de deliberação plural. O resultado é a uniformização dos percursos parlamentares e a perpetuação de uma elite política que só se renova dentro de si própria.
Este funcionamento endogâmico tem efeitos na perceção pública da política. A previsibilidade dos comportamentos parlamentares, a circulação entre Parlamento e Governo e a falta de diferenciação individual alimentam a ideia de um sistema fechado. Não se trata de uma crise conjuntural de confiança, mas de um défice estrutural de representação. Neste contexto, o populismo emerge, não como anomalia, mas como resposta a um bloqueio institucional sentido por uma parte significativa da sociedade.
A desconexão é particularmente visível na relação entre o sistema político e o interior do país. Embora formalmente representados, muitos territórios sentem-se ausentes das prioridades legislativas e das agendas políticas centrais. A concentração da vida política, mediática e decisória em Lisboa remete para segundo plano as assimetrias territoriais visíveis no encerramento de maternidades e tribunais, na vulnerabilidade crescente das instituições de ensino superior do interior e na fragilização de serviços públicos essenciais, percecionadas pelas populações como evidências de desvalorização política.
Esta realidade não é exclusiva de Portugal, mas assume aqui contornos mais graves devido ao histórico centralismo político e administrativo. Ao contrário de outros sistemas parlamentares europeus, onde a representação territorial é mitigada por mecanismos de proximidade ou por autonomias regionais, o modelo português concentra decisão, agenda e visibilidade num espaço político restrito. O interior surge, não como sujeito político ativo, mas como variável residual do sistema.
É neste contexto que o populismo encontra terreno fértil. Não porque ofereça soluções, mas porque dá expressão ao sentimento de abandono territorial. O discurso populista apresenta-se como alternativa a uma política institucional distante.
Reforçar a ligação entre o Parlamento e os territórios, valorizar a representação individual e recentrar a coesão territorial como dimensão essencial da democracia, são condições essenciais para restaurar a legitimidade do regime. Elas são imprescindíveis para reconciliar as populações com as práticas democráticas constitucionais.

