Em quem votaremos numa segunda volta?
No último dia de uma campanha eleitoral que tem sido uma verdadeira montanha-russa e com sondagens a apontarem para diferentes nomes que poderão passar à segunda volta, há uma pergunta fulcral por responder: qual é o candidato preferido de cada um em caso de derrota pessoal no próximo domingo? E nós em quem votaremos numa segunda volta?
Hoje é dia de apelar sobretudo aos indecisos. Em grande parte, será esse eleitorado quem decidirá as eleições. Refiro-me àqueles que ainda não definiram em quem votar ou àqueles que dizem que votam num determinado candidato, mas que, à boca das urnas, lá deslizam para outro, porque a convicção é plástica e, por isso, maleável. As últimas horas são sempre importantes. Desta vez, serão decisivas.
Nesta campanha parece haver uma situação ímpar, se seguirmos certas sondagens: uma aparente reviravolta na ordem inicial de preferência dos candidatos. Neste contexto, há várias perguntas: as sondagens espelham a vontade dos portugueses? O contacto dos candidatos com os eleitores, os debates e toda a mediatização que se adensou nestes últimos dias influenciaram a mudança de voto? Que força tiveram as redes sociais, maximizadas por uns e subvalorizadas por outros?
Antevemos uma segunda volta. Aí o voto será, sobretudo, mais um ato de ponderação do que um gesto de entusiasmo. Confesso que não sei qual o candidato preferido de cada um dos 11 candidatos, excluindo-se a si próprio. A escolha será sempre difícil e tributária de muitos fatores.
Do lado dos eleitores, o dilema também pode ser enorme. Há quem assegure que nunca votará em determinado candidato, mas, quando se confrontar com a alternativa, os princípios começarão a ser relativizados. Em 1986, aquando de uma segunda volta nas eleições presidenciais que opunham Mário Soares a Freitas do Amaral, o líder do PCP Álvaro Cunhal proferiu uma frase célebre: "Se for preciso, tapem a cara [de Soares no boletim de voto] com uma mão e votem com a outra". Poderemos ter de a reabilitar daqui a alguns dias...
Uma escolha mais apertada numa segunda volta implicará um teste à nossa verdadeira maturidade democrática, bem como à força dos partidos. Aí perceberemos se votamos por convicção, por exclusão ou por medo; e também veremos se os partidos se posicionarão pela força da razão ou da conveniência. Essas escolhas mostrarão muito mais o país que somos do que os candidatos que sobram. Não estaremos apenas a decidir quem ganha, mas quem estamos dispostos a aceitar em nome de um futuro mais equilibrado.

