Se passar a ferro fosse uma coisa boa não era sinónimo de atropelar alguém. Engomar uma camisa tem tantos segredos que nem uma dúzia de pastores conseguiriam guardá-los a todos. Por melhor que seja a técnica, por mais avançado que seja o equipamento utilizado, há sempre partes do tecido que escapam. Há zonas inatingíveis, triângulos das bermudas que o ferro não pode nem ousa atravessar. E depois? Mas em que altura a Humanidade passou a considerar uma peça de roupa engelhada um pecado mortal? Desde quando um indivíduo com um polo meio encarquilhado é um indigente ou um velhaco? Por acaso não são as rugas na face os sulcos da nossa história de vida? Um motivo de celebração e não de vergonha? Por que razão uma t-shirt encorrilhada não há de ser um documento histórico? Contra a ditadura dos lisos, marchar, marchar!
*Jornalista

