Enquanto a próxima tragédia não vem
As grandes tragédias poucas vezes acontecem por acidente. Resultam, em grande medida, da acumulação de um conjunto de condições que facilitam a sua ocorrência e potenciam o respetivo impacto, dilatando a fatura de destruição e morte. Temo-lo constatado, aliás, em demasiadas ocasiões e de forma cada vez mais frequente, ora porque há calor e os fogos florestais se tornam incontroláveis, ora porque as tempestades são cada vez mais violentas, mas sobretudo porque prevalece na nossa organização social, e não apenas em Portugal - basta pensar no que aconteceu em Valência há pouco mais de um ano -, uma cultura em que se acumulam a inércia, a falta de planeamento, a desorganização, o facilitismo, a negação das alterações climáticas e, acima de tudo, a erosão da autoridade do Estado face ao triunfo da lógica liberal que tudo privatizou, da rede elétrica às comunicações de emergência (que, aliás, nunca funcionam em situações de catástrofe).
Se há lição que devíamos ter aprendido pelo menos desde a pandemia da covid-19 é esta: a resposta eficaz a situações excecionais depende fundamentalmente da boa organização dos estados, da robustez das suas estruturas, do planeamento eficaz e, no caso dos países mais pequenos, da essencial união de esforços com outras nações, a qual permitiu, por exemplo, concertar medidas de apoio e assistência a nível europeu, ou negociar o fornecimento de vacinas de forma centralizada e em condições mais vantajosas.
É provável, ainda assim, que os catequistas do liberalismo continuem a reclamar a destruição da organização pública e a praticar o proselitismo suicida que nega a evidência científica e as alterações do clima provocadas pelo desequilíbrio ambiental decorrente da ação humana. Talvez o caos lhes seja conveniente e permita fazer bons negócios. Um Estado robusto e capaz de planear, de prevenir e de socorrer eficazmente estaria, em todo o caso, menos subjugado pela necessidade de pagar subsídios e apoios extraordinários de cada vez que ocorre uma tragédia, usando os recursos financeiros públicos para financiar a sua própria destruição.

