
As noites eleitorais tornaram-se palco de críticas a sondagens e aos meios de comunicação social que as divulgam. Após o discurso inflamado de André Ventura nas legislativas de maio, foi o recém-(re)eleito presidente da Câmara Municipal de Gaia, no rescaldo da passada noite eleitoral, a apressar-se a criticar a RTP e a Universidade Católica por a sondagem à boca das urnas ter sugerido um cenário de empate técnico. Desde já, agradeço aos meus colegas que me ajudaram a produzir esta reflexão.
A natureza das ciências sociais difere das ciências exatas porque aquelas lidam com fenómenos que não podem ser isolados nem reproduzidos em condições controladas. Por exemplo, é legítimo que um eleitor, após observar uma sondagem, mude o voto para evitar a vitória de determinado candidato.
Convergindo no uso do método científico natural, as ciências sociais adotam, cada vez mais, metodologias matematizadas e o tratamento estatístico. Estes métodos devem, contudo, ser vistos como auxiliares para a compreensão e estudo de fenómenos infinitamente complexos.
Neste caso, o método estatístico requer uma amostra que reflita as características da população da qual é extraída. Se aceitarmos que as sociedades ocidentais atravessam um período de alterações sociodemográficas e políticas, é natural que estejamos também num processo de ajustamento no conhecimento da população - essencial para identificar amostras mais fiáveis e melhorar a inferência estatística.
Também neste ponto, parece relevante sublinhar que líderes políticos que, aproveitando-se deste facto, reiteradamente descredibilizam as sondagens induzem a não adesão dos eleitores às mesmas, deturpando-as e reforçando um certo sentimento anticiência.
É preocupante ver políticos - especialmente de partidos que historicamente assumiram a custódia da democracia - recorrerem a ímpetos populistas para transformar ferramentas científicas em instrumentos de propaganda. Luís Filipe Menezes insurgiu-se durante a contagem de votos contra a sugestão de um empate técnico, quando o cenário de maioria absoluta parecia possível. No entanto, ainda que com mais cinco pontos percentuais, a coligação que lidera elegeu cinco vereadores - exatamente os mesmos que o Partido Socialista.Criticar sondagens para gerar clips propagandísticos, sem qualquer esforço construtivo de análise, é uma forma irresponsável de comunicação política: uma forma que abre caminho àqueles que querem fazer equivaler um método científico, ainda que imperfeito, ao bitaite.
