Todos temos acompanhado, com maior ou menor atenção, a operação desencadeada pelos Estados Unidos da América em Caracas, que culminou na detenção de Nicolás Maduro e a sua esposa. Trata-se de um acontecimento com relevância política e implicações profundas para a região e para a ordem internacional, que exige mais do que reações imediatas ou leituras ideologicamente condicionadas. As respostas públicas que se lhe seguiram revelam, uma vez mais, menos sobre o facto em si e mais sobre os reflexos automáticos de quem comenta.
Levantaram-se vozes de diferentes quadrantes ideológicos e, uma vez mais, sem qualquer surpresa. O posicionamento de muitos "opinadores" foi inteiramente previsível. De um lado, os mais alinhados com um Trumpismo acrítico aceitam, sem grande objeção, que uma potência possa entrar, porta adentro, noutro país soberano para destituir um ditador, desde que tal sirva para derrubar um diatdor, alinhar com os seus interesses estratégicos ou a sua visão de ordem regional. Do outro, há quem rejeite o essencial: que Nicolás Maduro lidera um regime autoritário e que a Venezuela, sob o modelo Chavista, é um fracasso evidente a nível económico, social e humano.
Vamos por partes. Existe uma corrente significativa que normaliza a violação da soberania de um Estado sem recurso às mais altas instâncias internacionais, como as Nações Unidas ou os mecanismos multilaterais existentes, invocando o direito a uma "vizinhança segura" ou "politicamente alinhada". No lado oposto da barricada, encontramos críticas veementes à atuação dos Estados Unidos, mas uma preocupante falta de coerência na condenação dos regimes repressivos, das perseguições políticas, das mortes e do êxodo de cerca de um quarto da população venezuelana, forçada a fugir em busca de uma vida que há muito lhes foi negada.
Eu defendo uma terceira via. Uma via que defende que qualquer ação desta natureza deve ser concertada com outros países, respeitando o direito internacional e os princípios que dizem sustentar a ordem democrática global. Uma via que não abdica da crítica às grandes potências, mas que também não relativiza ditaduras por conveniência ideológica.
Os venezuelanos merecem melhor. As comunidades estrangeiras no país também, incluindo a comunidade luso-venezuelana. O que está em causa não é escolher trincheiras ideológicas, mas afirmar princípios: liberdade, dignidade humana e responsabilidade internacional.

