Tenho pensado que espécie de bicho terá sido Jeffrey Epstein. O próprio nome tomou uma sonoridade de fera, embora lhe falte uma característica essencial dos predadores: não caçando por malícia, suponho que estes tirem tanto gosto da carne como os herbívoros da erva.
Por isso, Epstein não pode ter sido lobo, leão, urso, chita ou lince. Muito menos pode ter sido águia. Ele tinha o prazer triplo do sexo, do poder e do dinheiro - nenhum predador junta assim tanta perversidade.
Podia ter sido corvo, ou outro corvídeo, pelo aspecto recolector. Diz-se que essas aves gostam de objectos brilhantes. Além disso, como os corvos, Epstein era inteligente, era-o diabolicamente. Mas aos pássaros falta o gosto carnal, e não consta que sejam versados no mercado bolsista.
Excluindo os corvos e outros pássaros, podia ter sido mais próximo de um aracnídeo. Foi capaz de montar uma enorme teia, uma teia que chegava a vários nomes de um certo mundo, e também parece que, embora não capturasse as presas para as matar, em todo o caso o propósito era consumi-las. Tanto às vítimas menores como aos companheiros poderosos: consumir, tirar proveito. Porém, a classificação não satisfaz porque nenhuma aranha, no seu perfeito juízo, confraternizaria com as vítimas. No metiê dos aracnídeos, até seria considerado de mau tom à mesa.
Temos de chegar aos mamíferos, mais capazes de corpo e de espírito. Mas não pode ter sido roedor, ordem que representa uma larga percentagem dos mamíferos, porque felizmente Epstein era raro e infelizmente era sedutor. Nenhum rato cativa - talvez apenas os hamsters e os porquinhos-da-índia, e esses, ao contrário de Epstein, sobrevivem na gaiola.
Outra hipótese seria a hiena, perdida entre o predador e o necrófago, mas tenho quase a certeza de que nenhuma seria admitida nos conselhos de administração de universidades, em jantares de gala ou comissões de filantropia. A nenhuma seriam abertas de par em par, como a Epstein, as portas das elites.
Há a alternativa do chimpanzé. Epstein assemelhava-se muito aos chimpanzés nos jogos de poder, no sexo para prazer e domínio, na cobiça pelo que pertence aos outros. E até na inteligência. Mas classificá-lo assim levanta um problema, já que, bem vistas as coisas, qualquer chimpanzé não passa de um macaco. E ele tinha mais cálculo do que instinto, mais máscara do que focinho.
Pérfido, sedutor e inteligente, sôfrego por poder, dinheiro e influência, tal bicho só pode ter pertencido a uma única espécie. Da classe dos mamíferos, da ordem dos primatas, do género Homo, da espécie H. sapiens - Epstein só podia ter sido um ser humano.

