António Costa já há muito sabe que no Alentejo há "alguma população que vive em situações de insalubridade habitacional inadmissível, com hipersobrelotação das habitações", uma "gritante" violação dos direitos humanos".
Mas é preciso sublinhar isto: este abuso miserável de imigrantes teria continuado, não fora a covid-19 tê-la tornado demasiado evidente para ser ignorada. Em 2011, o bispo de Beja alertou para casos de trabalho escravo em explorações agrícolas na região. E no início de abril um artigo do JN denunciava a existência de "autênticos negreiros" de mão de obra para estufas e campos. Entre 2011 e 2021 passou uma década e houve suficientes reportagens e denúncias públicas sobre esta situação inqualificável, muitas surgidas já durante a pandemia.
Quem ouviu Costa quase que se convencia que a exploração de seres humanos no Alentejo era fenómeno muito recente. Mas não: o Governo sabia o que estava a acontecer, até porque publicou uma resolução em 2019 sobre esta questão, que depois esqueceu. Portanto, o Estado português foi conivente com uma violação reiterada dos direitos humanos todo este tempo. Uma infâmia que desonra o país.
*Jornalista
