Esfera pública, a crise de mediação no espaço democrático (I)
Um dos aspetos que mais nos inquieta na novel sociedade tecno-digital é a crescente desvinculação da política como espaço de mediação e regulação e, correlativamente, os fenómenos de privatização do público e politização do privado operados com ligeireza pelos media e as redes sociais que não hesitam em derramar o privado na esfera pública. Cada vez mais, aquilo a que chamamos esfera pública está transformado num espaço de violação de direitos fundamentais e de encenação e representação permanentes. As disfuncionalidades observadas no espaço público são cada vez mais evidentes. A cidade carrega o valor da cidadania, mas é incapaz de promovê-lo. Os espaços públicos desaparecem com a fragmentação da paisagem urbana. A gentrificação, a periurbanização, os guetos urbanos, os condomínios privados, a insegurança privada e a vigilância pública dominam a paisagem urbana segmentada.
Ora, neste contexto, cada vez mais hostil, a representa indireta da política precisa de ser articulada e complementada por uma representação de proximidade de natureza mais comunitária e associativa que se constitua como uma proteção cívico-política face à pretensa representação direta veiculada pelo populismo demagógico. É aqui que a esfera pública se encontra estacionada, neste caldo tépido de representações descontínuas e interesses dissonantes. A representação indireta, político-institucional, precisa de uma esfera pública que promova e proteja as comunidades inteligentes e criativas (CIC) da sociedade civil sem as quais não haverá interlocutores acreditados, e tanto mais quanto a democracia tem revelado dificuldades em se organizar em redor de interesses comuns.
Nesta lógica das representações a várias velocidades a cidade vive um dilema, a saber, o centralismo é pouco discriminatório e diferenciado para atender a todas as situações, o localismo é difuso e disperso em demasia e muito sobrecarregado pelos custos de contexto e redistribuição. Entretanto, as comunidades inteligentes e criativas (CIC) do movimento associativo e colaborativo não estão, ainda, suficientemente consolidadas para contrariar os interesses corporativos através da representação de interesses gerais e comuns, pois têm revelado muitas dificuldades em se articular e fazer ganho de causa no espaço público. Por outro lado, assiste-se à explosão da esfera pública digital e, aqui, não só os media e as redes sociais transmitem uma realidade em segunda mão, já condicionada e manipulada, como quase tudo é muito mais encenado, ligeiro e divertido. O resultado é conhecido, assiste-se à explosão de um individualismo cada vez
mais radicalizado que fratura e corrompe o interesse comum e as suas mediações e tudo o que sejam representações indiretas, associativas, comunitárias e interpares. E sem espaço público de qualidade, em meio urbano, não há comunidades inteligentes, criativas e solidárias, apenas ruído, ódio e ressentimento com origem principal nas redes sociais.
Não é impunemente que tudo isto acontece. É imprescindível que os cidadãos sejam alertados para o efeito sistémico perverso deste enorme caldeirão digital e para o risco de servidão voluntária, se a sua adesão não for adotada com conta, peso e medida. A AppStore do hipermercado digital está aí à nossa disposição, basta descarregar. Acresce que, uma aceleração digital feita num ambiente sem educação e cultura digitais suficientes pode abrir a porta a graves episódios de violação da privacidade e da liberdade e colocar em risco a representação na democracia liberal tal como hoje a conhecemos nos países ocidentais. Vejamos mais algumas facetas desta crise de mediação.
Em primeiro lugar, a digitalização, automação, IA e ambientes imersivos, vão mergulhar-nos numa espécie de buraco negro. Sem educação, literacia e cultura quanto baste nestas áreas e regras claras de regulação digital democrática na esfera pública, os automatismos a que vamos ser sujeitos vão tornar-nos uma presa fácil dos códigos informáticos e protocolos algorítmicos. A oportunidade de sermos estupidificados crescerá na mesma proporção. Um autêntico filão para populistas e demagogos.
Em segundo lugar, sem educação, literacia e cultura quanto baste naquelas quatro áreas e regras claras de regulação digital democrática na esfera pública, nós, os seres humanos, seremos progressivamente convertidos em subprodutos dos modelos de linguagem geral e específica e onde tudo o que vem de trás, do velho humanismo, perdeu importância e foi sendo dissipado, desde logo, tudo o que fazia a inteligência emocional do ser humano individual, a sua empatia pelos outros.
Em terceiro lugar, sem educação, literacia e cultura quanto baste naquelas quatro áreas e regras claras de regulação digital democrática na esfera pública, a nossa servidão voluntária converte-nos em cidadãos customizados, em uma espécie de clientes com indicação geográfica de proveniência (IGP) e denominação de origem controlada (DOC), com cartão personalizado e direito de acesso ao hipermercado tecno-digital onde vamos habitualmente para adquirir o que nos é prescrito pelo nosso assistente inteligente.
Em quarto lugar, sem educação, literacia e cultura quanto baste naquelas quatro áreas e regras claras de regulação digital democrática na esfera pública, tudo gira
vertiginosamente à nossa volta: a casa, o carro, a empresa, o escritório, a escola, a estrada, o hospital, etc. Tudo adquire vida própria e tudo debita informação a todo o tempo. Mais dados, sempre mais dados, e estaremos cada mais próximos da verdade ditada pela sociedade dos metadados, na grande rede do universo dos algoritmos e no grande terminal que é o smartphone de última geração. Cuidado, pois, com as vertigens e a saúde mental.
Em quinto lugar, sem educação, literacia e cultura quanto baste naquelas quatro áreas e regras claras de regulação digital democrática, a híper vigilância da sociedade tecno-digital e do capitalismo plutocrático pode tornar-se muito incómoda, pois podemos ficar algures entre a violência gratuita dos humanos e a nossa servidão voluntária e à mercê dos passageiros clandestinos e caçadores furtivos que reinam no universo virtual.
Finalmente, sem educação, literacia e cultura quanto baste naquelas quatro áreas e regras claras de cultura digital democrática na esfera pública, o que nos diz o hipermercado digital a propósito da democracia política? Que as instituições em geral são caras e preguiçosas e cada vez mais desajeitadas para lidar com a governação de plataformas, algoritmos e aplicativos; não surpreenderá que surjam, também, aplicativos sobre os procedimentos e protocolos da democracia parlamentar e muitas inovações digitais sobre a intermediação e representação política dos parlamentos.
Notas Finais
Sem literacia digital bastante e regras claras de cultura digital democrática, esta tendência crescente de converter cada gesto da nossa vida num aplicativo digital e, logo de seguida, atribuir ao nosso assistente inteligente, o smartphone, a função reguladora principal da nossa existência, é uma tendência deveras perturbadora. E tanto mais quanto as relações humanas e sociais perdem valor analítico-funcional e atrapalham o trabalho de depuração e limpeza, pois a inteligência humana é limitada por natureza e a inteligência emocional carrega uma espécie de obesidade desnecessária e inconveniente.
Por outro lado, a interoperabilidade das várias representações em presença - mais institucional, mais associativa e colaborativa e mais populista - e seus respetivos interesses específicos gera muita areia na engrenagem e desperdício de recursos, uma vez que os custos de contexto, de oportunidade, de formalidade, de cobertura de riscos e danos são cada vez mais elevados. A constatação parece evidente, não existem muitas condições para a formação de comunidades inteligentes, criativas e solidárias e, desta forma, a crise de mediação democrática é, por demais, manifesta. Para contrariar esta tendência,
precisamos urgentemente de reciclar e refrescar o nosso pensamento político para evitar o risco de disrupção entre o ator e o sistema. Perante a ascensão de uma sociedade de híper vigilância o real esconde-se, cada vez mais, por detrás das aparências e dos epifenómenos quotidianos enquanto a política, ela própria, se miniaturiza nos jogos de dissimulação e ocultação. Precisamos, por isso, de muita atenção e cuidados redobrados para prevenir a implosão das dimensões espaço-tempo, a crise da alteridade e da empatia, a prevalência da urgência, do imediatismo e da instantaneidade, uma constelação de circunstâncias que acelera a crise da esfera pública e da mediação democrática.

