Numa altura em que Portugal tenta passar pelos pingos da chuva e fugir ao radar raivoso de Donald Trump, ao nosso lado, o chefe de Governo espanhol, Pedro Sánchez, dá-nos uma lição sobre posicionamento. Não tapa a boca com a camisola, como faz o nosso Executivo a tentar explicar aos portugueses os contornos da utilização americana da Base das Lajes, nos Açores. Fala com clareza e mantém a coerência que o atual momento assustador que vivemos exige.
Sánchez é questionado e responde, não foge. Como se isso não bastasse, posiciona-se, não permitindo que os Estados Unidos utilizassem as suas bases militares para operações relacionadas com os ataques ao Irão.
A reação do presidente americano foi exatamente aquilo a que Trump nos habituou: infantilidade nas palavras e ameaças típicas de uma criança a quem foi retirado, sem aviso, o chupa-chupa. "Espanha tem sido terrível", atirou, avisando que tenciona "cortar todo o comércio" com o país. Além disso, ainda deixou um aviso, qual dono e senhor do Mundo: "Podíamos voar até lá e usá-las, se quiséssemos".
Com a mesma "espinha dorsal" e coragem, o primeiro-ministro espanhol explicou-lhe que está contra a guerra no Médio Oriente iniciada com os ataques americanos e de Israel e que não vai mudar de posição "por medo de represálias". Esta tem sido, aliás, a postura adotada por Sánchez em relação à Ucrânia, a Gaza, à Gronelândia e à Venezuela: a rejeição do que desrespeita o direito internacional e a Carta das Nações Unidas. Preto no branco.
Ser aliado não pode ser sinónimo de vassalagem cega e perda de voz, sobretudo quando está em questão o nosso futuro. No mínimo, é preciso questionar as reais razões dos ataques ao Irão e - spoil alert! - nem a Administração americana se entende. Rubio disse, num dia, que o país representava uma ameaça iminente e Trump afirmou, horas depois, que o Irão ia lançar ataques preventivos contra os EUA por iniciativa própria. "Foi a minha opinião, que eles iam atacar primeiro", justificou. Meus senhores, afinal, em que é que ficamos?
É por isso que posturas como as do primeiro-ministro espanhol são importantes. Trump vê o Mundo com um olhar sedento de poder - Cuba já está na lista também - e gosta de criar o caos para surgir como salvador. Sempre que alguém sem limites toma a palavra, dois Sánchez têm de levantar a voz. Pelo nosso próprio bem.
"Não se responde a uma ilegalidade com outra. É assim que começam os grandes desastres. Devemos aprender com a História". Gostava que tivesse sido o Governo português a dizê-lo. Mas não foi.

