Cumprindo a promessa que fez na campanha eleitoral, Filipe Menezes começou o mandato em Gaia a destruir a ciclovia instalada na Avenida da República, eixo central da cidade. Desconhece-se se houve uma análise técnica, se consultou especialistas em mobilidade, se pediu pareceres. Ou se simplesmente lhe pareceu que deveria tomar a decisão. No nosso país, qualquer medida que perturbe a mobilidade automóvel é impopular e, por consequência, qualquer medida que a promova tem um consenso quase generalizado. Não digo que a ciclovia existente era perfeita ou que não causasse transtornos, mas não seria melhor corrigir algum erro em vez de destruir?
Tal como a tomada por Moedas, em Lisboa, é uma medida em contraciclo com as melhores práticas de mobilidade a nível europeu, em que a mobilidade suave e a pedonalização das artérias centrais são ponto assente para um desenvolvimento sustentável e melhoria da qualidade de vida. O autarca prometeu 25 quilómetros de ciclovias no concelho, mas podia ter aproveitado estes que já estavam feitos, num ponto fundamental para deslocações de rotina e não apenas turísticas, como é a da marginal. Não se vislumbra num futuro próximo que o carro deixe se ser o principal meio de transporte individual nos movimentos pendulares ente Porto e Gaia, mesmo com novas linhas de metro, mas se não houver decisores políticos com coragem para a mudança, mesmo que lhes custe alguma popularidade, não vamos conseguir chegar a um lugar diferente no que respeita à mobilidade no Grande Porto.
"O que aprendemos em Londres é que onde fazemos ciclovias as pessoas usam-nas. Vão trabalhar, vão para a escola, vão visitar amigos, de bicicleta", dizia em 2021 Will Norman, comissário para a Mobilidade Ciclável e Pedonal da Câmara de Londres, uma versão prática da frase batida "se o construírem, eles virão", do filme "Field of Dreams".

