Na semana passada, graças a um convite que me fizeram para falar sobre o que será o conceito de neotascas, dei por mim a fazer uma reflexão sobre o que é, primeiro de tudo, uma tasca. Etimologicamente, é praticamente impossível criar uma nova palavra sem que a origem da palavra signifique alguma coisa. E definir "tasca" tornou-se importante, não só para um episódio de podcast sobre comida, mas também politicamente falando. Já lá vamos.
É impossível resistir à obsessão que este tema me provoca. Porque, acima de tudo, para mim é uma questão de identidade. (Muitos de vocês não têm moral nenhuma para julgar porque eu bem tenho visto a maneira descompensada como têm gerido as eleições do Benfica). O meu pai veio de uma aldeia minhota, diretamente para a Musgueira, em Lisboa, para trabalhar numa taberna a servir copos de vinho. Tinha 14 anos. Os meus pais conheceram-se porque tanto um como outro trabalhavam a cozinhar e a servir na restauração, nomeadamente em tascas da zona da Baixa e Restauradores. Os meus pais abriram os seus próprios estabelecimentos e fecharam a sua última tasca há quatro anos. Eu cresci dentro de uma. Durante anos, os três levantávamo-nos todos os dias às cinco e meia da manhã e regressávamos a casa depois da meia-noite, vivíamos lá dentro seis dias por semana e não ganhei a referência "ir a correr para casa, depois da escola, para ver os desenhos animados". O que esta vida me tirou resultou também em coisas positivas: um palato estupidamente desenvolvido de quem com cinco anos jantava os restos da mão de vaca que tinham sobrado do prato do dia; uma capacidade imbatível em aturar bêbados; e uma competente capacidade de trabalho, até porque a terapia para processar tudo isto, como devem imaginar, não é barata.
O dicionário descreve uma tasca como "estabelecimento modesto que vende bebidas e refeições". Insuficiente e enganador. Primeiro, estabelecimento modesto, ponto e vírgula. Há tascas com painéis de azulejos de fazer corar a estação de São Bento e desde quando é que ter patas de presunto penduradas no teto é uma coisa simplória? Bebidas e refeições, confere. Mas também pastilhas Gorila, que são usadas muitas vezes como troco, quando não há moedas e, às vezes, encontramos uma com aquele jogo em que compras uma rifa e pode sair-te o número para o chocolate grande da Nestlé. Também não vende só refeições. Dá, muitas vezes. "O senhor quer mais um rojão? Veja lá. Não paga mais por isso". Depois, é realmente um significado poucochinho. Uma tasca é um pilar da sociedade. É o ponto de encontro praticamente diário onde ainda se comem umas moelas a um preço justo, com um fino a estalar e se comenta temas da atualidade: desde aquele lance polémico que foi ao VAR até aos aumentos de dez cêntimos no subsídio de refeição. É onde a dona Emília vai porque se rebentou o disjuntor e encontra alguém pronto para a desenrascar. É uma comunidade que dá por falta do senhor Vítor, que há uns dias que não aparece e tem de ir lá alguém a casa ver se está tudo bem. É onde se oferece pires com castanhas e um copinho de água-pé para celebrar o São Martinho. O problema é que estão em vias de extinção e devia-se tomar medidas para as protegerem. É cada vez mais difícil manter locais como estes, seja porque não há interesse das novas gerações e é tipicamente um negócio familiar, seja porque as rendas estão caras e o que rende ao final do mês mal dá para manter a porta aberta, porque os preços são feitos para o pessoal trabalhador.
O que mais me chateia é que não há semana que passe sem que oiça alguém a utilizar a palavra "tasqueiros" ou a expressão "conversa de taberna" em conversas quotidianas graças à retórica da extrema-direita. E ficam a saber que temos de parar com isto, imediatamente. A que tascas é que vocês vão? Posso adiantar-vos que as conversas mais xenófobas e machistas que presenciei foi em sítios em que comem com talheres de peixe. Portanto, em pleno hemiciclo, o deputado Filipe Melo diz a uma deputada do PS "vai para a tua terra" e os comentários são "mas ele pensa que está na tasca ou quê?". Não. Os comentários que os representantes do Chega tecem não acontecem em tascas com a mesma frequência e, quando acontecem, a probabilidade é que alguém responda com "O senhor está bonito, está, senhor André. Vá andando para casa porque não lhe sirvo mais nada." O facto é que as tascas, hoje em dia, são sítios mais decentes e solenes que a Assembleia da República.

