Globalização: entre a língua comum e o direito à diferença
Vivemos num tempo em que a palavra "global" deixou de ser um conceito abstrato para se tornar experiência quotidiana. As fronteiras continuam a existir, mas são cada vez mais permeáveis. Pessoas, bens, ideias e, sobretudo, culturas circulam com uma intensidade inédita. Em muitas cidades do mundo, basta entrar num café ou apanhar um transporte público para ouvir várias línguas diferentes. A globalização não é apenas económica; é cultural, social e profundamente linguística.
Neste contexto, o multiculturalismo deixou de ser exceção para passar a regra. A emigração, as redes digitais e os media internacionais criaram espaços onde culturas distintas convivem diariamente. E com as pessoas viajam também as suas línguas. Uma língua não permanece confinada ao território onde nasceu. Enraíza-se noutros contextos, adapta-se, mistura-se, transforma-se. Cresce.
As diferenças culturais podem gerar tensão, sobretudo quando há desconhecimento ou desigualdade. Mas podem também ser fonte de aproximação. O contacto entre culturas permite aprendizagem mútua e cria novas formas de expressão. A cultura contemporânea não é homogénea nem pura; é resultado de cruzamentos constantes. A universalidade do nosso tempo constrói-se mais pela coexistência da diversidade do que pela imposição da uniformidade.
A língua ocupa aqui um lugar central. Está em permanente mutação e evolui no contacto com outras línguas. Incorpora vocábulos, adapta estruturas, reinventa significados. Nenhuma língua é estática. E nenhuma, por mais difundida que esteja, pode ser considerada superior às restantes apenas por acompanhar centros de poder económico ou mediático.
É inegável que o inglês ocupa hoje uma posição dominante. A ciência, a tecnologia, a diplomacia e grande parte da cultura popular global circulam através dele. Esse facto responde a uma necessidade prática: num mundo interligado, é útil que existam línguas de comunicação ampla. O mesmo se pode dizer de outras línguas internacionais, como o português, que ligam comunidades dispersas por vários continentes.
Contudo, reconhecer a utilidade de uma língua global não implica aceitar a erosão das restantes. Cada língua transporta uma visão do mundo, uma memória coletiva, uma forma própria de organizar a experiência humana. Quando uma língua desaparece, não se perde apenas um instrumento de comunicação; perde-se um património cultural irrepetível.
O desafio da globalização está precisamente neste equilíbrio. Por um lado, a tendência para a homogeneização cultural é real. As culturas com maior presença nos media e maior capacidade de produção simbólica difundem-se com facilidade. Por outro, aquilo que designamos como cultura popular é frequentemente o resultado de influências múltiplas, incluindo contributos de tradições menos visíveis.
Também a experiência individual se tornou mais complexa. Quem migra raramente abandona totalmente a cultura de origem, mas também não permanece imune à cultura de acolhimento. Cada pessoa passa a pertencer, em certa medida, a várias comunidades culturais. Constroem-se identidades híbridas, compostas por referências diversas. Esta realidade pode gerar incerteza, mas representa igualmente uma oportunidade de enriquecimento humano.
Neste contexto, o conceito de interculturalidade ganha verdadeira importância. Não basta que culturas diferentes coexistam no mesmo espaço. É necessário que dialoguem, que se reconheçam mutuamente e que evitem a tentação de se julgarem umas às outras a partir dos seus próprios critérios. Nenhuma cultura tem o monopólio da interpretação do mundo.
A globalização não tem de significar uniformização. Pode, pelo contrário, representar maturidade coletiva. O verdadeiro progresso não está em reduzir o mundo a uma única língua, a um único modelo cultural ou a uma única forma de pensar, mas em criar condições para que diferentes vozes coexistam em pé de igualdade. Precisamos de línguas de comunicação ampla, sim. Precisamos de pontes. Mas também precisamos de raízes.
Se aceitarmos que cada língua transporta uma visão singular do mundo, então proteger a diversidade linguística é proteger a própria humanidade na sua complexidade. O desafio não é travar a globalização, mas humanizá-la. Garantir que a circulação de culturas não se transforma na absorção silenciosa das mais frágeis pelas mais dominantes.
Num mundo interligado, a força não deve residir na imposição, mas na capacidade de dialogar. A diversidade não é um obstáculo à modernidade; é a sua condição mais rica. O nosso tempo exige menos uniformidade e mais compreensão. Comunicar melhor não significa ser igual, mas aprender a conviver, com maturidade, nas diferenças que nos definem.

