1. Todas as previsões nacionais e internacionais convergem na expetativa de uma nova vaga da pandemia covid no próximo outono/inverno. Os indicadores das últimas semanas, em vários países europeus, são já um ameaçador sinal do que nos espera, com ou sem vacinas disponíveis no mercado até à próxima primavera. E Portugal não escapará à regra.
Dito isto é suposto que o Governo assegure aos cidadãos que o país está preparado para todas as eventualidades. Mas, verdade se diga, não é isso que transparece para a opinião pública de forma evidente. Há uma espécie de manto de ocultação que não nos permite ficar descansados. Mais parece que vivemos um período de anestesia geral da sociedade, entregues à sorte e à fé.
2. Sejamos então muito claros. Perante a ameaça, o Governo não pode esperar a complacência das oposições. Esse tempo passou e a experiência da primeira vaga da pandemia serviu de lição mais que suficiente para que o Governo tenha preparado e previsto tudo o que é necessário para uma nova ameaça. Por isso, não pode haver tolerância, nem desculpas, nem perdão.
Se perante uma nova vaga os hospitais entupirem, não haverá perdão. Se não houver ventiladores para todos, não haverá perdão. Se houver camas e macas nos corredores, não haverá perdão. Se faltarem médicos, enfermeiros ou auxiliares, não haverá perdão. Se os lares forem antecâmaras da morte, não haverá perdão. Se os centros da saúde não funcionarem em pleno, não haverá perdão...
3. Já houve mais do que tempo para dotar o SNS dos meios necessários para todas as eventualidades. Já houve mais do que tempo para a Segurança Social se organizar com todos os planos de contingência para o que der e vier. Já houve mais do que tempo para a Proteção Civil e forças de segurança se prepararem com respostas de emergência. Não há desculpas nem perdão.
O país não pode continuar adiado. Temos de viver com as circunstâncias de anormalidade, com ou sem picos de novos surtos. A economia tem de funcionar e os cidadãos têm de sentir motivos de esperança. Cabe ao Governo a responsabilidade de assegurar condições de vida digna para todos. E cabe às oposições denunciar a incompetência, os erros, as omissões, etc.
*Professor Universitário e investigador do CEPESE (UP)
