As viagens e os livros são seguramente das melhores fontes de aprendizagem que conheço.
Estive, recentemente em Lodz, na Polónia, como oradora num Congresso sobre o Clima promovido pela Câmara Municipal da cidade. Na Polónia, não há grande entusiasmo com a transição energética - em grande parte devido à forte dependência da economia polaca do carvão -, mas há, felizmente (!), líderes políticos que reconhecem a oportunidade que este momento representa de investimento no futuro. Hannah Zdanowska, presidente da Câmara de Lodz, é uma dessas líderes. Mas, hoje, o que quero partilhar com os leitores é a realidade que encontrei em Lodz: uma cidade de 700 mil habitantes e agora com mais 100 mil refugiados ucranianos.
Nesta viagem, reencontrei um amigo de longa data, o Bartosz Domaszewicz, que é vice-presidente da Assembleia Municipal de Lodz, que me deu a visão que a Polónia tem desta guerra e informações que a este lado mais ocidental da Europa nem sempre chegam. Pela proximidade geográfica e social com a Ucrânia, é natural que haja na Polónia uma grande pressão para receção e acolhimento de refugiados ucranianos. O mesmo se passa noutros países como a Eslováquia, a Moldávia e a Roménia. Mas o Bartosz alertou-me para um problema a que não tem sido dada a devida atenção e que pode, em pouco tempo, evoluir para uma situação social dramática: a Polónia não tem experiência de gestão de fenómenos de grande influxo de refugiados ou migrantes e, portanto, os procedimentos normais de registo e de monitorização são deficientes. Logo no início da guerra, entraram na Polónia milhares de ucranianos, incluindo bebés cujo registo não foi feito e cuja localização é desconhecida. Parece-me importante salientar que a maioria dos refugiados ucranianos é composta por mulheres e crianças, perfis mais vulneráveis para cair nas mãos de pessoas mal-intencionadas e redes de tráfico humano. O Bartosz dizia-me que qualquer traficante que estivesse na fronteira polaca nos primeiros dias da guerra, no meio da confusão e do desespero, estava "no paraíso".
A resposta do Governo polaco na gestão dos refugiados tem sido muito limitada, pelo que a solidariedade individual e os municípios estão a assumir o papel do Estado, com milhares de polacos a acolherem nas suas casas mulheres e crianças ucranianas. Mas por quanto tempo será sustentável esta situação? A quem acolha um refugiado ucraniano, o Estado polaco apoia com 10 euros por dia durante três meses, mas não há soluções de médio prazo e o que vem a seguir parece-me muito preocupante. Situações de sem abrigo e criminalidade podem avolumar-se se continuarmos sem respostas específicas para estas pessoas. Infelizmente, também não faltam ainda casos de quem se aproveita do desespero e da política de acolhimento em vigor para lucrar.
O drama agrava-se e o pior que pode acontecer é que por falta de respostas sociais vejamos os próprios povos europeus, a prazo, revoltarem-se contra os refugiados. A bem da coesão social e da dignidade humana, precisamos de estratégias e soluções concretas para estas pessoas.
*Eurodeputada do PSD
