Herança de avô dado às surpresas, encontrei uma monografia, editada em 1875, com o título "Galeria de Homens e Mulheres Célebres do Porto".
Contrariamente ao que hoje se publicaria, o conceito não distingue celebridades do espetáculo, finança e cultura. Do alto coturno. Nada disso. Fala de figuras que animavam as ruas e traziam à cidade a diferenciação que a humanizava. Os nomes afirmavam modos de ser. O Vinte e um e o Rolhas (sempre juntos), Dona Maria 2.ª, Faustino, Negro Melro, Cartolas, Bispo, Nanaia, Corcunda, Manoel Zé, Desgraça, Urbano, Henriqueta e Martinho. Biografados como gente grada.
Na Foz, do início do século XX, circulava o "Carola", considerado dos maiores manguelas do Burgo, foi submetido a tratamento radical: o Administrador do Bairro desterrou-o para a terra de origem, no Minho. Até ao último terço do século XX, o Bairro da Sé foi um alfobre de personalidades do quotidiano. Deixaram a saudade de um espaço habitado, onde as relações de vizinhança eram ativas. Eis a Sé, na criatividade do humor onomástico: Branquinha do Fraga, Cara Alegre, Pintainhos, Maria do Xuxu, Quim Colchoeiro, Excaler, Maria do Pico, Idalina das Meias, Pai do Magnório, Sarampelo, Caçona, Rosa Francesa, Torradinhas, Esticadinho, Ana dos Meninos. E outros.
Se querem que lhes diga, sinto falta deste tempo das alcunhas. Não havia a formatação da frase-feita e a "resiliência" não estava inventada. Tudo era natural e em estado puro, sem "clichés". Chateia-me a uniformidade (até na corrupção) e, como diria o Miguel (Veiga), "Viva a heterodoxia2. (Reconheço: envelheci e sem dar por isso.)
Professor e escritor

