Humor, substantivo masculino: mordacidade chistosa; ironia delicada. A definição é do dicionário Priberam e encerra a ideia de equilíbrio. Para funcionar, a mordacidade tem de ter graça. Ao uso da ironia, adiciona-se a delicadeza. No Parlamento, o secretário de Estado Mourinho Félix, braço-direito de Mário Centeno nas Finanças, quis encontrar a fórmula para arrancar umas gargalhadas, mas faltou-lhe elegância semântica.
"Disfuncionalidade cognitiva temporária" foi a expressão dirigida ao deputado Leitão Amaro que incendiou o hemiciclo. Durante 4,34 minutos ouviram-se gritos, deputados a bater nas mesas em sinal de protesto, tentativas infrutíferas do presidente da Assembleia da República para que os trabalhos prosseguissem.
O momento de circo parlamentar foi a imagem perfeita daquilo em que se transformou o tema no centro da azeda troca de galhardetes, a Caixa Geral de Depósitos. A novela dura há um mês e dez dias, mas está igualzinha às piadas do secretário de Estado que tem conduzido o dossiê: sem graça nenhuma.
Os episódios são conhecidos. A 18 de outubro começou por discutir-se o valor dos salários pagos à nova equipa de gestão. Sucederam-se as polémicas sobre a não entrega de declarações de rendimentos ao Tribunal Constitucional, contradições sobre os compromissos assumidos pelo Governo com os gestores, acusações de que a Oposição estaria a pôr em causa o processo de recapitalização. O mais recente fascículo foi a confirmação de que o presidente da Caixa participou em negociações em Bruxelas quando ainda era gestor do BPI.
A demissão de António Domingues, anunciada ontem, é a reação à proposta aprovada três dias antes na Assembleia. Apoiado pelo CDS e pelo BE, o PSD conseguiu tornar obrigatória a entrega das declarações de rendimentos. Já se tinha percebido que o presidente da Caixa não aceitaria essa natural imposição de transparência.
É inegável que ou Mário Centeno ou o seu adjunto, Mourinho Félix, têm responsabilidades políticas na trapalhada em que se transformou um processo de importância estratégica. Mas quem perde com mais um momento de instabilidade é a CGD - logo, por arrasto, todos os portugueses. Resolvido o imbróglio da declaração de rendimentos, é urgente que o Governo forme nova equipa e retire de uma vez a CGD do alcance dos holofotes. 2017 está ao virar da esquina e novos erros não apenas não teriam graça, como custariam dinheiro.
* Subdiretora
