Incêndios e tempestades
Estamos a atravessar dias em que a chuva cai como se quisesse compensar anos de seca. Neste momento, a prioridade é óbvia: proteger pessoas e empresas, garantir respostas rápidas, apoiar quem perdeu tudo.
Mas há uma verdade desconfortável que o país terá de ter em conta quando as tempestades acalmarem. Não basta "voltar à normalidade". É precisamente aí que devemos começar a preparar a época de incêndios.
Portugal vive num ciclo permanente entre cheias no inverno e fogo no verão. Este é o resultado de um território mal preparado, de décadas de decisões que desvalorizam a prevenção e tratam a proteção civil como um reforço sazonal. E é também o sinal de que o nosso modelo de proteção civil e de bombeiros precisa de ser repensado, passando gradualmente de um sistema assente no voluntariado para um modelo mais profissional.
A natureza pode ser incontrolável, mas a dimensão das tragédias não é. A forma como respondemos às tempestades e aos incêndios tem raízes no ordenamento do território e na capacidade local. As cheias tornam-se devastadoras quando há impermeabilização descontrolada e as infraestruturas são pensadas para um clima que já não existe. Os incêndios assumem proporções catastróficas quando a floresta está sem gestão e o interior despovoado e sem meios. Consequência de um centralismo que concentra tudo na capital e deixa o país sem níveis intermédios de governação.
A adaptação climática não pode ser um tema que só regressa quando há tragédia. Exige investimento, consciência coletiva e coragem política para fazer reformas estruturais. O intervalo entre a água e o fogo é cada vez mais curto. Ou nos preparamos agora, ou continuaremos apenas a contar prejuízos.

