Lamborghinis e doutoramentos
Quando falamos com alunos de doutoramento, constatamos com estudantes que, no geral, estão recheados de um bom percurso escolar e académico até ao mestrado. No entanto, quando entram num curso de doutoramento, na generalidade das áreas oferecidas, alguns desafios emergem com significado especial.
Um dos mais importantes é o peso das taxas de matrícula e o valor da propina. Sabemos que nas nossas decisões - desde as mais espontâneas até às mais complexas - tendemos a ponderar custos e benefícios, sejam eles calculados espontaneamente ou não.
A opção por um curso de doutoramento proporciona expectativas diferentes para os que o procuram. Para lá de expectativas de resposta às próprias expectativas dos grupos primários de cada estudante (que esperam que o bom aluno continue o bom estudo), existe também a expectativa da própria sociedade (que espera que o capital humano reforçado dos seus membros traga melhorias de qualidade de vida, de produtividade e de satisfação geral).
Se isto é assim na teoria, na prática as coisas são um pouco diferentes. Para lá da escolaridade obrigatória, estuda quem pode. Mas sobretudo estuda quem percebe ganhos mais ou menos evidentes perante o esforço de estudar um ano a mais ou um ciclo de estudos a mais. Antes, muitas análises concluíam que estudar mais compensava sempre. Hoje compreendemos que, em muitos casos, estudavam mais aqueles cuja compensação era mais assegurada. Nada impede que alguém compre um Lamborghini e o passeie por trilhos de rally cross - assim tenha dinheiro. Nada impede que alguém frequente e obtenha um doutoramento e continue a auferir o salário mínimo - aliás, muitos fatores podem conduzir atualmente em Portugal a esta situação. No entanto, muitos dos que frequentam um doutoramento neste país, além do estímulo financeiro oriundo de bolsas de apoio e do importante apoio dos referidos grupos primários (família, entenda-se), fazem-no para estarem próximos de potenciais contratadores (centros de investigação e universidades).
Invocando novamente o Lamborghini (um pouco mais caro, se for novo, do que um doutoramento em Portugal), quem o compra é quem pode e quem vive ao pé de autoestradas.
Mas também aqui, como no preço do combustível para o mesmo Lamborghini, a comparação com os valores praticados em Espanha é gritante. Enquanto o preço do combustível tende a ser 20% mais caro em Portugal do que na Espanha, o custo de um doutoramento para residentes está na proporção de quase um para dez, sendo mais caro em Portugal. Felizmente, o preço do Lamborghini não é assim tão diferente em ambos os lados da fronteira.

