Lições da tempestade: governar com discernimento
A demissão da ministra da Administração Interna leva-nos a questionar se o perfil ideal de um governante é técnico ou político. A complexidade dos acontecimentos exige a quem governa competências para dominar rapidamente os dossiers, mas a celeridade com que os acontecimentos se sucedem hoje impõe também políticos capazes de permanecer em equilíbrio (sempre precário, é certo) num puzzle onde as negociações políticas e a comunicação são variantes críticas.
Um governante com perfil técnico pode dominar profundamente os problemas e antecipar soluções, mas arrisca-se a ser incapaz de transformar esse conhecimento em consensos ou estratégias políticas viáveis. Por outro lado, um político experiente é mais hábil a navegar pelos corredores do poder e pelos fluxos da informação, mas corre o risco de se desviar de medidas que determinem a eficácia das políticas. No contexto atual, marcado por inesperadas e densas crises, o perfil ideal talvez seja híbrido: alguém capaz de entender depressa a situação, mas também que consiga dialogar com diferentes atores, gerir expetativas e construir pontes. Este equilíbrio, difícil de concretizar, é essencial quando o espaço mediático amplia cada decisão ou hesitação.
Com um país a debater-se com tempestades, inundações e os respetivos efeitos que se arrastam há demasiados dias, duas políticas têm sobressaído: a ministra do Ambiente e Energia e a presidente da Câmara Municipal de Coimbra. Embora com atividade académica suspensa, Graça Carvalho é professora catedrática do Instituto Superior Técnico, nas áreas da energia e das alterações climáticas; Ana Abrunhosa é professora da Faculdade de Economia da Universidade Coimbra. Ambas têm carreira do Ensino Superior, mas também reúnem um expressivo percurso político. E partilham um traço pessoal valioso em situações de crise: bom senso. Falam no registo certo, sem causar alarme; estão disponíveis para comunicar, sem estarem demasiado presentes, porque têm outro trabalho a cumprir. Demonstram humildade para solicitarem a ajuda de especialistas. Em vários momentos, ouvi de ambas a referência a saberes especializados de pessoas que, no terreno ou nos gabinetes, ajudam a diagnosticar o que se passa e, a partir dali, a tomar medidas.
Em síntese: governar hoje exige mais do que dominar dossiers ou negociar no tabuleiro político-partidário. Requer discernimento, humildade, capacidade de aprendizagem e disponibilidade para comunicar no registo certo. Essa combinação, aliada a um sentido público e a uma atenção permanente às pessoas, faz toda a diferença num político capaz de exercer bem o sem mandato.

