Lusofonia: Entre a herança e a construção política
A lusofonia é frequentemente apresentada como uma evidência quase natural: uma comunidade dispersa por quatro continentes, unida por uma língua comum e por uma história partilhada ao longo de cinco séculos. A imagem é sedutora. Sugere proximidade, cumplicidade cultural e um património comum que atravessa oceanos. No entanto, importa questionar o que sustenta realmente essa narrativa. Trata-se de uma comunidade efetivamente coesa ou de uma construção política e simbólica que necessita de constante reafirmação para se manter plausível?
As definições de lusofonia são plurais e, muitas vezes, ambíguas. Fala-se de um espaço transcultural e transnacional, alicerçado na língua portuguesa e composto por sociedades com percursos históricos, realidades sociais e matrizes culturais profundamente distintas. À semelhança da francofonia ou da anglofonia, conjuga língua, cultura e projeção internacional. Contudo, ao contrário dessas esferas, a lusofonia carrega uma herança colonial particularmente sensível, que não pode ser tratada como mero pano de fundo histórico. Essa herança continua a moldar relações, expectativas e desconfianças.
Durante décadas, em Portugal, a ideia de lusofonia foi integrada numa narrativa de continuidade histórica quase épica: a expansão marítima, os "encontros de culturas", a miscigenação. Essa leitura, quando não é criticamente examinada, tende a diluir as assimetrias de poder que estruturaram o império e a minimizar as violências e exclusões inerentes ao colonialismo. Ao privilegiar a dimensão cultural e afetiva, corre-se o risco de obscurecer a dimensão política e económica das relações coloniais. O ciclo imperial terminou. Persistir numa visão nostálgica não apenas empobrece o debate como compromete a credibilidade de qualquer projeto comum.
Num contexto pós-colonial, a lusofonia só pode afirmar-se como espaço de igualdade entre Estados soberanos. Foi com esse propósito que nasceu, em 1996, a Comunidade de Países de Língua Portuguesa. A criação da CPLP procurou conferir institucionalidade a uma ideia até então difusa, transformando uma afinidade linguística num quadro formal de cooperação político-diplomática. Mas institucionalizar não equivale, necessariamente, a integrar.
Quase três décadas depois, impõe-se uma avaliação crítica. Que resultados estruturais produziu essa institucionalização? A mobilidade entre cidadãos permanece limitada e desigual. A cooperação económica revela assimetrias marcadas. A circulação de conhecimento científico em língua portuguesa enfrenta obstáculos estruturais, desde a escassez de financiamento até à dependência de circuitos académicos dominados pelo inglês. As cimeiras multiplicam-se, os comunicados reafirmam compromissos, mas a tradução dessas intenções em políticas consistentes nem sempre é visível. Falar a mesma língua não significa partilhar prioridades estratégicas.
Além disso, o espaço lusófono é profundamente assimétrico. O Brasil detém um peso demográfico, cultural e económico incomparável. Angola e Moçambique desempenham papéis relevantes nas dinâmicas regionais africanas, com agendas próprias e inserções internacionais diversificadas. Timor-Leste afirma-se num contexto geopolítico complexo no Sudeste Asiático. Portugal, por seu turno, integra a União Europeia e orienta grande parte da sua política externa para esse espaço. Cada Estado atua segundo interesses nacionais específicos. A ideia de um bloco coeso, capaz de agir como sujeito político unificado, raramente encontra confirmação na prática.
Talvez o equívoco resida na expectativa de uma unidade excessiva. A lusofonia não precisa de homogeneidade para existir. Pode assumir-se como espaço plural e até tensionado, onde convergem trajetórias distintas. Contudo, essa pluralidade exige reconhecimento explícito das diferenças e das desigualdades, não a sua diluição retórica. A invocação da "língua comum" não pode funcionar como substituto de políticas concretas nem como atalho simbólico para uma solidariedade que não se constrói automaticamente.
A língua portuguesa é, sem dúvida, um instrumento relevante. Porém, a língua, por si só, não corrige disparidades económicas, não resolve fragilidades institucionais nem cria mercados integrados. Se a lusofonia pretende ultrapassar o plano simbólico, terá de investir de forma consistente na produção de conhecimento, na inovação tecnológica, na mobilidade efetiva de estudantes e profissionais e na criação de redes económicas sustentáveis. Caso contrário, arrisca-se a permanecer como categoria identitária de baixa densidade prática.
O verdadeiro desafio consiste em transformar um legado histórico ambivalente numa plataforma de futuro. Isso implica abandonar mitos confortáveis e enfrentar perguntas incómodas. Que modelo de cooperação é desejável e para quem? Que lugar pode ou deve ocupar Portugal num espaço que já não gira em torno de si? Como promover a língua sem reproduzir hierarquias implícitas ou paternalismos subtis? E até que ponto os diferentes Estados encaram a lusofonia como prioridade estratégica, e não apenas como recurso diplomático ocasional?
A lusofonia só ganhará consistência se for construída como projeto negociado e partilhado, não como herança administrada a partir de um centro implícito. O passado ajuda a compreender o presente, mas não o determina. A língua aproxima, mas não substitui compromissos políticos claros. No fim, será a capacidade de assumir conflitos, reconhecer assimetrias e definir objetivos comuns que decidirá se a lusofonia se afirmará como comunidade com densidade política ou se permanecerá como memória confortável de um passado reconfigurado.

