Maio, maduro Maio, quem te pintou? Quem te quebrou o encanto nunca te amou." Cantava José Afonso. Versos apropriados para um mês de (des)enganos.
Carro de propaganda do 1.º de Maio, no coração empobrecido de Lisboa. "Pelo emprego, salário e direitos sociais". Quem não subscreveria o estribilho, a não ser o mais obtuso dos patrões, ou o mais suicida dos operários?
O problema não são as ideias e as palavras, mas a execução. O diabo são sempre os detalhes.
Trabalho e emprego são coisas diferentes. Infelizmente, nem todos os trabalhadores estão empregados. Desgraçadamente, nem todos os empregados trabalham.
Valorizar o trabalho honrado (como se dizia no meu tempo), isto é, apoiar apenas o labor justamente remunerado e adequadamente expendido (não queremos escravos, nem trabalhos forçados), significa vigiar as amplas zonas de transgressão e não cumprimento.
Terminar com os contratos por razões políticas, as admissões por favor partidário, o assalto do Estado pelas clientelas, é também parte do combate pelo trabalho, contra o emprego injustificado.
E os direitos? O meu pai, que foi ministro da Saúde na outra senhora, disse um dia num discurso que "só há verdadeiro Serviço Nacional de Saúde quando o ministro e o pastor forem atendidos e tratados da mesma maneira". Na análise dos imperativos do Estado social, não há "esquerda" e "direita". Claro que o regime de liberdades é preferível a qualquer outro, mas a libertação do ser humano passa também pela sua dignificação económica, pela solidariedade, e pela igualdade real (não a dos teóricos e prosadores) perante a lei.
Na actual debandada, esperemos que não se destrua o núcleo dos direitos sociais, alicerçado pela civilização, e não pelos regimes, a pretexto de desmontar a administração redundante do Estado, erguida a muitos pretextos.
Por fim, pensemos a sério no trabalho útil. Nos sectores onde temos de investir mais e melhor. Na ligação entre as escolas, outros centros de qualificação, famílias e empresas.
Pensemos na forma de ter reformas mais equitativas e adequadas, mas antes na maneira de tornar o esforço operário mais competitivo e remunerador.
Evitemos as ilusões. Não há soluções mágicas, nem fáceis.
"Numa rua comprida, El-Rei Pastor // vende o soro da vida, // que mata a dor".
Cantava também José Afonso.
